Às vezes só precisamos que nos abracem por dentro – Por Rosa Fonseca

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Outubro rosa, o mês em que mais se fala de cancro na mama e se promovem atividades e debates. E neste âmbito, fui convidada pela Estrutura Federativa das Mulheres Socialistas de Aveiro – MS ID, para uma tertúlia, onde a partilha de testemunhos na primeira pessoa, foi sem dúvida, intensa e ao mesmo tempo, aconchegante e afetiva; um estar inteiro com o outro, calçando os seus próprios sapatos, pisando a mesma calçada. Em cada mulher, um olhar de esperança e uma força viva para ultrapassar uma doença que espreita a cada esquina do nosso caminho. Em cada palavra, a incógnita, a ansiedade. Em cada lágrima a busca de conforto.
O que fizemos ali, foi alertar, prevenir, desmistificar e respeitar. Mas acima de tudo, ouvir e abraçar.

Às vezes só precisamos que nos abracem por dentro.
Quando me convidaram foi-me proposto que escrevesse um texto para ser lido aos presentes.
O que poderia eu dizer se estava do lado de fora?!
Estaremos mesmo do outro lado? Não creio. Ninguém está!

Recebemos a notícia e naquele momento ficamos indiferentes: “Isto não é comigo!”, “Na minha família não tenho ninguém que tivesse tido cancro da mama.”
O teu olhar vago encontra-se com o do médico e são velozes as tuas palavras: “Mas morre-se de cancro!”. E é logo ali que o chão te foge. Ninguém está imune. Como ninguém está preparado para ouvir o veredito: “Tem cancro!”.

É um momento tão solitário que as lágrimas congelam. Choram os que nos acompanham. Estamos sem estar. Uma ausência involuntária. Somos já um peão no caminho. E nesse caminho que se prevê íngreme e sombrio, as lutas serão muitas e desiguais, as dores também, mas é preciso acreditar que vamos ganhar esta batalha pela luz que se acenderá na noite escura.

Neste trilho vamos aprender que a dor é muito nossa e intransmissível, muito solitária. Que fecharemos, muitas vezes, a janela e nenhum candeeiro se acenderá; que a cama e o sofá serão, muitas vezes, os únicos braços que nos afagam. Serão dias de névoas em plenos dias de sol. Mas a nossa força, mulher, sobrepõe-se a todas as sombras e vestimo-nos de uma energia rara e uma determinação inabalável.

Descobrimos em nós a superação, a resiliência e a recusa em desistir. Abriremos todas as janelas e permitimo-nos viver. No caminho haverá ventos fortes, sim, mas nenhum nos derrubará. Haverá tempestades, sim, mas nenhuma destelhará a casa.

Na senda dos nossos passos encontraremos outros rostos; rostos desgastados e sombrios, outros ainda, desabrigados e perturbadores, vestidos de muitos receios e aflições, medos e dúvidas. Em cada palmo do nosso corpo, em cada mudança, em cada alarme que soa, há um mapa de dor traçado a vermelho.

Mas nada nos demoverá de continuar e refazer a geografia do nosso corpo, porque é, em cada uma de nós que habita a esperança, a fé e a força e todas as preces dentro do peito.
Este texto é para ti, Mulher que a certa altura da tua vida sentiste ou virás a sentir, o desamparo, o amargo dos dias, o avesso de todas as coisas; a solidão e o abandono de ti própria e uma cratera no peito quebrado e, ainda assim, abraças em silêncio uma história comum a tantas de nós.

O medo dissipa-se lentamente e os teus olhos aprendem a sorrir e a tua boca a beijar. Os teus braços tornam-se casa e colo dos que te amam, dos que estiveram contigo.
Foi um caminho árduo, labiríntico, ultrapassado com pequenas glórias e amor.
Vale a pena acreditar que contemplar um lírio branco pode ser a mais bela das coisas e que em todos os desertos há um oásis à nossa espera.
Onde vamos buscar a força? Ao amor, último reduto da Humanidade.
Só o amor nos salva!

E continuaremos sentadas à beira-mar a bebericar um Gim e a contemplar o horizonte.
Há lá beleza maior!?

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