Resultado de álcool e ervanária

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Confesso que, por vezes, sinto uma pontada de inveja desta nova fauna urbana que deambula pelas nossas praças. É preciso uma tremenda coragem, ou uma total ausência de matéria cinzenta, para enfrentar a complexidade do século XXI munido apenas de um cigarro forte, carinhosamente baptizado de “erva”, e de um copo de plástico cheio até ao topo com um destilado qualquer de qualidade duvidosa.

Esta malta abdica voluntariamente de qualquer vestígio de discernimento para viver a vida num regime de alucinação permanente. Cruzamo-nos com eles a qualquer hora do dia: são autênticos zombies de olhos vítreos e passos arrastados, que parecem saídos de um filme de terror de baixo orçamento, mas com vestuário de marca. A inteligência humana, que demorou milénios a desenvolver a teoria da relatividade e a inventar o antibiótico, capitulou solenemente perante o poder anestesiante de uma planta fumada à pressa num beco. O resultado é este espectáculo deprimente de cidadãos que abdicaram da sua dignidade em troca de um torpor mental que lhes permite ignorar a inflação, as crises geopolíticas e a própria existência do vizinho do lado. Vive-se ao sabor da moca, numa fuga para a frente onde o único objectivo real é garantir que o cérebro não acorda para a dura realidade de ter de pagar o passe social no final do mês.

O colapso intelectual desta gente atinge o seu apogeu estético quando a autarquia local decide gastar uns milhares de euros num espectáculo de fogo-de-artifício. É nesses momentos que a máscara da modernidade cai por terra. Perante as explosões coloridas no céu, a multidão de zombies transforma-se, instantaneamente, num infantário gigante sem supervisão médica. Pessoas feitas, com barba na cara e descontos para a Segurança Social, abrem a boca num esgar de parvoíce profunda, apontando para o ar enquanto soltam grunhidos de admiração que fariam um chimpanzé parecer um catedrático de Coimbra. Reagem às cores e aos estalos com o mesmíssimo espanto de um primata que acabou de descobrir o fogo na Idade da Pedra. É uma regressão cognitiva que chega a dar pena: a incapacidade de processar um estímulo visual sem entrar num transe infantil, cortesia das substâncias esquisitas que andaram a inalar minutos antes. Ficam ali, especados, a babarem-se para cima do casaco uns dos outros, celebrando o facto de o céu ter ficado temporariamente cor-de-rosa, esquecendo por completo que no dia seguinte têm uma reunião às nove da manhã pelo Zoom para discutir gráficos de produtividade.

O que realmente me preocupa nisto tudo — e me faz quase desejar o regresso da Inquisição ou, pelo menos, de um par de bofetadas pedagógicas — é a total e absoluta ausência de consciência no dia-a-dia. Esta anestesia geral gerou uma sociedade onde as pessoas esqueceram como se socializa como seres humanos normais.

O conceito de conversar, trocar ideias ou simplesmente manter a civilidade num espaço público foi substituído por um isolamento ruidoso e agressivo. A anarquia reina nas ruas e ninguém parece importar-se. A perda de noção das regras básicas de convivência atingiu proporções tão bíblicas que coisas elementares, como o funcionamento de um semáforo, passaram a ser vistas como meras sugestões decorativas da câmara municipal. O peão moderno, com o cérebro amolecido pelos fumos daquela vegetação duvidosa, olha para o boneco vermelho com a mesma indiferença com que eu olho para um catálogo de tapetes persas. Atravessam a estrada em câmara lenta, como se estivessem a flutuar numa praia de Ibiza, enquanto os condutores — frequentemente no mesmo estado de graça psicadélica — travam a fundo num festival de pneus queimados e insultos criativos.

Se tentarmos fazer a autópsia desta decadência social e procurar o paciente zero que nos trouxe a este estado de sítio cívico, a resposta é evidente. Toda esta rebaldaria contemporânea começou, sem sombra de dúvida, no preciso momento em que a malta decidiu que era uma excelente ideia começar a fumar aquelas coisas esquisitas que cheiram a estrume queimado e a incenso indiano. Foi aí que o fio à meada se perdeu. A partir do momento em que a sociedade aceitou que queimar neurónios numa mortalha era um direito fundamental do cidadão comum, a lógica e o civismo arrumaram as malas e emigraram.

O resultado está à vista de todos: uma nação de autómatos desorientados, incapazes de respeitar o código da estrada, mas extremamente competentes a aplaudir luzes no céu. E o pior de tudo isto é que esta névoa mental é contagiosa. Dou por mim preso no trânsito, a assistir a um destes zombies a atravessar a passadeira com o semáforo vermelho, e em vez de manter a minha habitual pose de intelectual urbano indignado, sinto uma vontade incontrolável de abrir a janela e gritar-lhe uma baboseira qualquer que ouvi ontem no Canal Panda.

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