Fim do ano letivo: quando a escola se torna humana e verdadeira

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“E a escola torna-se muito mais verdadeira, porque é hora de despedidas.” A frase é da professora e colega Cláudia Leite. E foi precisamente a partir deste seu olhar, ao mesmo tempo simples e profundamente revelador, que esta crónica se começou a construir. No final do ano letivo, quando os corredores se enchem de lágrimas, despedidas e abraços, há uma verdade que emerge com clareza: a escola é, antes de tudo, uma experiência humana.

“E a escola torna-se muito mais verdadeira, porque é hora de despedidas.” A frase habita-me como ficam as palavras inevitáveis, aquelas que não se discutem, porque acertam no âmago do que somos antes mesmo de o sabermos dizer. Foi a partir deste pensamento, tão denso na sua simplicidade, que esta reflexão nasceu. Não como um exercício de escrita, mas como uma necessidade de compreender aquilo que todos sentimos (professores!) e que, contudo, raramente conseguimos nomear, enquanto ainda estamos dentro do ano, presos à urgência dos dias.

A escola vive, afinal, de um estranho equívoco. Passa meses a organizar-se como uma estrutura de controlo — programas a cumprir, metas a atingir, avaliações a realizar — e, no entanto, é no instante da sua suspensão, quando tudo se aproxima do fim, que finalmente se revela na sua verdade. A despedida opera essa transformação silenciosa. Desarma os papéis, dissolve as hierarquias, retira-nos os argumentos. E deixa-nos, quase desprotegidos, frente a frente com aquilo que realmente aconteceu entre nós: a verdade.

Foto de Alejandra Montenegro

É nesse momento que vemos os alunos a chorar nos corredores, como se o corpo dissesse aquilo que a linguagem nunca ousou. É nesse momento que os professores começam a abrir bilhetes dobrados, escritos à pressa, mas carregados de um pudor emocional que os torna irrepetíveis. São palavras simples, muitas vezes imperfeitas, mas que chegam com uma força absoluta: “obrigado”, “não me vou esquecer”, “foi importante”.

E há algo de particularmente comovente no gesto de quem resistiu durante todo o ano. Os alunos mais difíceis, os que testaram limites, os que pareceram ausentes ou indiferentes, são frequentemente os que mais nos surpreendem. Aproximam-se devagar, como quem ainda não tem bem a certeza do que sente e reconhece. Reconhecem que alguém não desistiu. Que alguém ficou, mesmo quando tudo parecia falhar.

Talvez seja isto que a canção de Fernando Machado Soares intuiu com uma clareza quase dolorosa:“Coimbra tem mais encanto na hora da despedida”. O encanto não está apenas no vivido, mas na consciência de que esse vivido, esse caminho, se torna irrepetível. Como se o tempo, ao fechar-se, nos obrigasse a ver melhor.

Nesse instante, percebemos aquilo que o quotidiano oculta: que a educação nunca foi apenas transmissão. Foi relação. Foi encontro. Foi, tantas vezes, um confronto difícil que, sem sabermos, estava a produzir transformação. E essa transformação não é mensurável.

O pedagogo Paulo Freire lembrava que “a educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.”. Mas mudar pessoas não é um gesto rápido, nem evidente. É um trabalho de presença, de insistência, de desgaste silencioso. É acreditar no outro antes de ele próprio o conseguir fazer. É permanecer quando o mais fácil seria recuar.

Durante o ano letivo, tudo isto raramente se vê. Há dias em que a sala de aula parece um espaço de desencontro, onde as palavras não chegam e os gestos falham. Há momentos em que ensinar se aproxima perigosamente da frustração. E, no entanto, algo continua a acontecer, subterraneamente, como uma raiz que cresce fora do campo visível.

A despedida torna visível o invisível. Um abraço mais demorado revela meses de resistência. Uma lágrima legitima tentativas falhadas. Um olhar sustentado diz aquilo que nunca foi dito. E o professor, nesse instante, compreende, não com a razão, mas com o corpo, que o seu trabalho foi mais profundo do que aquilo que alguma avaliação poderia registar.

Talvez por isso ensinar seja, no fundo, um ato de fé laica. Uma forma de acreditar na possibilidade do outro, mesmo sem garantias. E também uma forma de aceitar que grande parte do que fazemos só ganha sentido quando deixamos de estar presentes.

George Eliot (1819-1880), pseudónimo de Mary Ann Evans, romancista autodidata britânica, que usava um “nom de plume” masculino para que seus trabalhos fossem levados a sério, escreveu que “em cada despedida existe a imagem da morte”. Não como fim absoluto, mas como passagem inevitável. Na escola, cada final de ano é esse pequeno rito de passagem: uma morte simbólica que obriga a libertar o que foi, para que algo possa continuar noutro lugar, noutra forma.

E é por isso que a escola se torna mais verdadeira na despedida. Porque já não há espaço para fingir. Já não há tempo para adiar. Fica apenas aquilo que resistiu ao desgaste dos dias: o vínculo. Essa matéria invisível que nenhuma grelha avalia, mas que sustenta tudo.

Talvez seja isso que a frase de Cláudia Leite nos devolve com tanta precisão: a consciência de que a escola, no seu âmago, não é feita de conteúdos, mas de encontros. E que é no instante em que nos separamos que percebemos, com uma lucidez quase insuportável, que esses encontros nos transformaram.

Como na canção de Coimbra, a saudade não mente. E, no silêncio depois do adeus, a escola, finalmente, torna-se verdadeira.

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