Para vocês! – Por Ana Costa

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Acho que talvez não vos tenha dito tudo… Na verdade, agora que reflito terei dito pouco.

Quando a escola fechou — não só para férias, mas para sempre — senti que ficava qualquer coisa por terminar, como quando deixamos uma frase a meio ou como quando adormecemos antes de um filme chegar ao fim.

Por isso escrevo. Para vocês. (Não para ensinar, nem para explicar. Só para agradecer.)

A vocês que chegavam atrasados, de passos apressados e olhos aflitos, como quem queria ser invisível até chegar ao lugar. A vocês que evitavam o meu olhar com receio de ouvir o “então, aconteceu alguma coisa?”. E mesmo assim, chegavam. E eu aprendi a ver para lá do atraso: o esforço de sair de casa, o cansaço de quem já trazia o dia às costas antes da aula começar. Com vocês estou a começar a aprender que a pontualidade pode não ser sempre sinal de presença, e que há presenças que chegam devagar.

A vocês que me obrigavam — com jeito ou com teimosia — a ter conversas infinitas sobre como a matemática era fácil. Que me desafiavam, que reclamavam, que torciam o nariz à tabuada e aos problemas de mais de três linhas. A vocês que me ensinaram, sem querer, que ensinar não é só explicar. É negociar, escutar, adaptar. E rir. Rir muito. Porque vocês, entre protestos e piadas, fizeram da minha sala de aula um lugar sempre mais leve.

A vocês que puxavam por mim, com um brilho nos olhos, para que eu contasse histórias que não vinham nos livros. Aquelas perguntas que começavam com “Professora, já agora…” e que me levavam por tangentes deliciosas: a origem das palavras, curiosidades da ciência, memórias da minha infância, coisas da vida. Vocês lembraram-me de que aprender não é só cumprir um programa. É abrir janelas. E eu abri-as, tantas vezes, e com muito gosto.

A vocês que sabiam, mesmo sem saber porquê, quando eu precisava de silêncio. De um gesto. De um abraço. Que percebiam os dias em que a minha voz vinha mais baixa, os olhos mais fundos. A vocês que me ofereciam desenhos, bilhetes, piadas ou apenas uma presença calma. Que me davam o que nem sabiam que davam: apoio, ternura, humanidade.

A vocês, que sem o saberem, me ajudaram a viver com a ausência do meu Pai. A carregar o luto nos dias em que ele pesava mais do que eu. A vocês, que distraíam a minha dor com a vossa vida. Com a vossa energia, com os dramas dos recreios, com a desordem boa de quem está a crescer. A sala de aula foi, muitas vezes, o meu refúgio. E vocês foram o meu chão.

A vocês, todos, que eu adoro. Que moram agora numa parte de mim onde não há notas, nem avaliações, nem reuniões de professores, nem papéis sérios para assinar. Só lembranças. Os risos e as gargalhadas. A autonomia de ir à casa de banho sem pedir. A cara de espanto ao perceber uma explicação. A festa porque a nota subiu. A lágrima quando algo doía. Os olhos atentos, os cadernos rabiscados, a voz de um “professoraaa!” dito com carinho e caos.

A escola fechou. É verdade. As portas trancaram-se. Os corredores ficaram mudos. Mas vocês não. Vocês continuam a existir dentro de mim.

E é estranho pensar que posso não vos ver mais. Que alguns de vocês talvez nunca mais me reconheçam na rua. Que talvez um dia se lembrem apenas de uma professora “que era simpática, às vezes brava, mas contava boas histórias”.

Eu lembro-me de cada um de vocês com uma nitidez que dói. Não como alunos. Mas como pessoas. Acho que nunca vos disse, mas foi isso que vocês sempre foram para mim: pessoas inteiras. Em construção, é verdade, mas inteiras.

E se ensinei alguma coisa — alguma mesmo — foi porque me ensinaram primeiro a amar esta minha profissão, este ofício e se ser professor, tantas vezes mal-entendido. Há ligações que não precisam de espaço nem de tempo. E esta, a que tenho convosco, é uma dessas.

Continuem! Façam barulho! Perguntem muito e riam ainda mais. E nunca duvidem: uma professora nunca esquece os seus alunos! Muito menos os que a ensinaram tanto.

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