Ora bolas, Miguel – Por Miguel Correia

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Há noites em que o sono não quer aparecer. Preparo tudo para a bela da ressonadela e, no momento fatídico, fico a contar carneiros ou a observar as fissuras no tecto do quarto. Este panorama prolonga-se e, mesmo com o avançar das horas, os olhos insistem em não fechar. O instinto intervém e, contrariando todas as recomendações médicas, ligo a televisão e ouço o tiro de partida da prova local de zapping.

Tenho o hábito de começar pelo primeiro canal e seguir por aí adiante – provavelmente, como tantos leitores desta crónica. Parei na posição 4, nomeadamente, a TVI, e assisti ao novo programa de entretenimento familiar “Ora Bolas”. Quer dizer, digo novo, apesar de estarem a transmitir o episódio quatro. Falha minha, claro, não do canal. Trata-se de um concurso gravado na Argentina – esta informação será útil mais à frente. Qualquer programa que envolva maus-tratos aos concorrentes tem o meu aval! Ao ver que os destemidos participantes se posicionam como num pelotão de fuzilamento, de costas voltadas a umas bolas gigantes e na frente de uma monumental piscina, é (sem dúvida) motivo válido para pousar o comando. Nem foi preciso aguardar muito pela primeira resposta errada e momento de impacto…

A equipa, composta por cinco aspirantes ao título de navegador de água doce, posicionou-se no beiral da piscina ao longo de seis lugares vagos. O objectivo é não escolher a posição que corresponde à resposta errada e, claro está, a que oferece uma lavagem simples e instantânea. A pergunta, no ecrã, incidia sobre quais os países não membros da União Europeia. Assertivos, ocuparam as respectivas posições e, para meu entusiasmo, uma concorrente escolheu a posição da Suíça em detrimento da Bulgária. Fiquei em êxtase! O mergulho estava a escassos segundos! A ordem foi dada e as bolas iniciaram o seu caminho descendente para punir o acéfalo.

Para meu espanto e registo de insanidade, ninguém mergulhou! Raios! Eu, com a firme certeza que a Suíça – que não tem mar – iria oferecer um encontro imediato com a água, fiquei de boca aberta ao constatar que o prémio aquático estava na Bulgária. Descarreguei alguns impropérios nada amistosos para a televisão, como se alguém do outro lado conseguisse ouvir. Até pesquisei nas redes sociais, em busca de mais pessoas na minha situação. Quase ligava para o Comité Nobel! Senti-me uma mente brilhante por descobrir uma tremenda gafe, despercebida a milhares de pessoas! Nada. Nem um comentário.

Culpei os argentinos por não conhecerem nada da Europa! Contudo, antes de avançar com a teoria da conspiração e ocultação de erros, revi a pergunta. Descobri que a minha mente, com poucas horas de sono, não é brilhante. Apenas distraída.

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