A Paz de Não Ganhar

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O cérebro humano é uma máquina extraordinária. Consegue armazenar memórias de infância, aprender línguas, reconhecer rostos e, por razões ainda pouco esclarecidas pela ciência, ensaiar durante quatro dias uma resposta para uma conversa que já terminou.

Uma frase dita à pressa numa terça-feira pode regressar na sexta, tomar banho, vestir roupa nova e reaparecer na cabeça com argumentos que nunca teve quando era necessária. A conversa acabou. As pessoas seguiram caminho. O assunto morreu. Mas algures dentro de nós continua uma pequena equipa de juristas emocionais a preparar alegações finais.

Durante anos chamei-lhe rigor.
Agora suspeito que era só exaustão com melhor vocabulário.

Porque uma coisa é procurar a verdade. Outra, bastante diferente, é precisar que ela seja reconhecida por toda a gente para podermos descansar.
É uma armadilha subtil.

Começamos por defender uma ideia e acabamos a defender a nossa identidade. Sem dar por isso, deixamos de discutir o assunto e passamos a discutir a nossa própria legitimidade para existir naquela conversa. A partir daí, qualquer discordância ganha um peso desproporcionado. Já não parece uma diferença de opinião. Parece um pequeno ataque à estrutura do edifício.
Talvez por isso tantas discussões nunca cheguem a lado nenhum.

Raramente estamos a debater apenas factos. Estamos a proteger histórias, pertenças, lealdades, receios e versões de nós próprios que demoraram anos a construir.
O curioso é que o mundo parece pouco preocupado com estas batalhas.
O mar continua a chegar à praia sem esperar validação. As árvores persistem na sua teimosia de dar fruto sem consultar sondagens. A gravidade mantém uma carreira impressionante de consistência sem precisar de vencer debates.
E nós, apesar disso, insistimos.
Insistimos muito.

Uma das cenas mais cómicas da vida adulta acontece quando alguém passa horas a reunir fontes, organizar raciocínios, antecipar objeções e escrever uma resposta tão sólida que merecia ser arquivada na Torre do Tombo. Depois envia-a.
A resposta chega alguns minutos depois.
“Ok.”
Só isso.
Um “ok” tão pequeno que quase não ocupa espaço no ecrã.

Um “ok” provavelmente escrito entre duas dentadas numa sandes.

Naquele instante, dezenas de páginas invisíveis de argumentação evaporam-se da história humana com a elegância de um castelo de areia atingido por uma gaivota particularmente indiferente.
E o mais irritante é que, muitas vezes, o “ok” tinha razão.
Não sobre o assunto.
Sobre a inutilidade do julgamento.
A certa altura comecei a reparar numa mudança discreta.
As opiniões continuavam lá.
As convicções também.
Mas desaparecia lentamente a necessidade de as transformar em certidões autenticadas pelo universo.
Nem toda a gente precisava de concordar. Nem toda a conversa precisava de terminar em consenso.
Nem toda a divergência exigia uma sentença final. Foi um alívio inesperado.
Uma espécie de espaço vazio que apareceu onde antes vivia uma urgência permanente.

Descobri então uma forma de paz sobre a qual se fala muito pouco.
A paz de continuar a pensar sem precisar de vencer.
A paz de continuar a discordar sem precisar de converter.
A paz de perceber que o mundo consegue permanecer inteiro mesmo quando deixamos de o segurar com as duas mãos.

Curiosamente, foi nesse momento que algumas pessoas começaram finalmente a ouvir-me.

E outras não.

O mundo não acabou por causa disso.

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