No dia 5 de Dezembro de 1996 o Centro Histórico do Porto foi classificado como Património Mundial pela UNESCO. Por essa altura eu tinha ateliê de desenho e pintura na Rua Arquitecto Nicolau Nazoni (esquina com a rua dos Caldeireiros… cujo edifício é, hoje, um “Alojamento Local”) e trabalhava no Jornal de Notícias (JN) onde desempenhava o cargo de Ilustrador Principal, mas também escrevia.
Directores e chefes de Redacção de todos os jornais por onde passei (os três maiores do Porto, mais o Notícias da Tarde e O Jogo), sempre publicaram os meus textos quando eu tinha algo para dizer para além do que “dizia” nos desenhos.
Na oportunidade, entendendo que o património não se resume “às pedras das casas e das ruas” que fazem o lugar, mas que é também (quiçá principalmente) a gente que “dá vida àquelas pedras e ruas”, entrevistei dez profissionais que exerciam profissões em vias de extinção, como: um caldeireiro, um tipógrafo, um técnico reparador de máquinas de costura, e dois sapateiros… entre outros. As entrevistas eram publicadas, semanalmente, na secção Grande Porto do JN.
Dois dos meus entrevistados foram os mestres sapateiros Langarica e Travassos, com oficina na rua dos Caldeireiros (cujo texto foi publicado no dia 22 de Julho de 1997). O espaço de que dispunha na página era muito limitado, pelo que me obrigava a escrever de um modo resumido o que tinha para contar. No caso dos mestres sapateiros, o texto não passou de um brevíssimo apontamento biográfico dos dois.
Porém, o Travassos contou-me um episódio da sua vida de criança que era uma pena ficar por publicar… por isso aqui vai o que “a ditadura do espaço” não permitiu ser publicado no JN, e que O Cidadão publica em primeira mão.
O TRAVASSOS

O Travassos na verdade não se chamava assim. No seu Bilhete de Identidade era Eduardo… o nome Travassos foi alcunha que ganhou por ser muito parecido com o jogador do Sporting que tinha o mesmo nome e fez parte do grupo “os Cinco Violinos” (jogadores de futebol do Sporting, que se notabilizaram na segunda metade da década de 1940).
Entre as várias vivências que Eduardo recordava da sua juventude, há uma que ele reputava de particularmente importante pela carga política repressiva que carregava, e que caracteriza o Estado Novo de António Oliveira Salazar.
Em 1939, o Eduardo (que ainda não era Travassos nem sabia que iria sê-lo) frequentava a Primeira classe da instrução primária na Escola Nº 15, situada na Praça das Flores (zona do Bonfim), Porto (hoje transformada em edifício de apartamentos, cuja fachada com azulejos de cor grenat foi mantida).
A aula dos Sábados era especial por ser totalmente preenchida com outras aprendizagens que não as letras e os números. Ao sétimo dia aprendia-se a cantar o Hino Nacional com acompanhamento musical do professor Elídio que tocava flauta. Num desses Sábados musicais e patrióticos, a escola foi visitada por um estranho senhor que ordenou ao professor o envio dos alunos, todos os Sábados, para a Escola Alexandre Herculano, na Avenida Camilo. Aí chegados foram recebidos por um militar de patente, o capitão Nunes, que lhes deu instrução militar na qual usavam réplicas de espingardas em madeira.
Ao fim de algumas daquelas sessões dos sábados de manhã (estranhamente bélicas) o capitão Nunes escolheu meia dúzia de moços – os que demonstraram melhor desempenho nos exercícios daquela espécie de “ordem unida” – e deu-lhes a farda da Mocidade Portuguesa, composta por calções amarelos, cinto de fivela com forma da letra S, meia alta verde, camisa da mesma cor com o símbolo das quinas, dos castelos e da flor-de-lis (que constituiu a bandeira do reino, de D. João I até D. Afonso V) estampado no bolso, mais um bivaque castanho. O Eduardo estava na lista dos melhores. Os colegas menos qualificados nos exercícios, tiveram de pagar a farda.

(Para os meus leitores mais jovens que não tiveram essa vivência, é preciso dizer que a Mocidade Portuguesa era um organismo oficial de doutrinação da juventude, criado em 1936, na dependência do Ministério da Educação Nacional. De acordo com o pensamento do governo, aquela instituição visava “estimular o desenvolvimento integral da capacidade física da juventude, a formação do carácter e a devoção à Pátria no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, e no culto do dever militar”. Era um organismo de carácter para-militar inspirado nas organizações juvenis fascista e nazi, da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler, que Salazar instituiu na fase da fascização das escolas).
Naquele Sábado, o Eduardo rumou a casa todo ufano, sentindo-se “polido” de vaidade com a sua linda farda nas mãos. Batia-lhe no peito a ânsia de a vestir! Ao chegar, o seu pai, que era democrata e republicano, arregalou os olhos de espanto ao reconhecer, pela cor, aquela roupa dobrada nas mãos do filho. Com uma expressão desusada no olhar e timbre de voz inequívoco dos seus intentos caso o rapaz não cumprisse a sua vontade, ordenou-lhe a devolução imediata daqueles trapos a quem lhos tinha entregue, e que jamais voltasse a casa com aquilo no corpo ou nas mãos!
Surpreendido com a reacção do progenitor, o Eduardo não sabia a razão pela qual não devia aceitar aquele fardamento tão desejado… mas o estranho olhar do pai a sublinhar a sua razão gritada, não dava lugar a dúvidas… o que era suficiente para perceber que aquela farda não devia ser vestida por si!
A INTELIGÊNCIA DA AVÓ E A HUMANIDADE DO PADRE
Lavado em lágrimas, o moço regressou à escola cumprindo a vontade do pai. Já no regresso, encontrou a avó paterna que quis saber o porquê de ele estar assim tão triste e com olhos chorosos. Inteirada do sucedido, a avó – que, no dizer do Eduardo, “detinha uma inteligência superior à média que naquele tempo caracterizava as mulheres tementes e obedientes” – imaginou logo o grosso sarilho em que o filho podia ter-se metido com tal atitude… e acompanhou o neto a casa para ter uma conversa com o pai do rapaz.
Estava a avó a chegar ao ponto final da tal conversa, quando bateram à porta. Era o capitão Nunes! A avó decide tomar conta da situação, e o pai não se mete na questão, a não ser para sublinhar e autenticar as palavras da sua mãe.
O militar queria saber a razão pela qual o pai do Eduardo não queria que o filho militasse na Mocidade Portuguesa. Era um dever patriótico, disse ele… por isso, aquele cidadão estava obrigado a dar uma explicação da sua atitude à Pátria que ele representava!
A avó do Eduardo, munindo-se do tom de voz mais cordato, explicou que não era bem o querer ou não querer… o facto – argumentou – é que o seu neto já era Lobito na secção de escuteiros na igreja do Bonfim, e a família não considerava correcto o rapazinho, ainda tão novo, ter duas fardas!…
O capitão não se convenceu e ordenou ao pai que o acompanhasse à esquadra de polícia local, para saber o que tinham as autoridades civis a dizer daquele cidadão. Partiram para a esquadra que, então, se localizava em Fernão de Magalhães (na proximidade da casa e das escolas, localizadas nas redondezas da igreja do Bonfim, fazendo um triângulo).
A avó não os acompanhou. Em vez disso dirigiu-se para a igreja.
No posto policial, o capitão Nunes ouviu as melhores referências ao pai do Eduardo. Não só nada constava dele nos registos criminais da esquadra de polícia, como também os agentes o conheciam, dada a proximidade da sua casa à esquadra, e teceram os melhores elogios àquele cidadão ordeiro, trabalhador e cumpridor das leis!
Para o capitão Nunes aquilo era demais!… Ele queria obter provas de que o pai do Eduardo era contra o regime político para, em conformidade com as normas do Estado e a sua autoridade, o meter num calabouço.
Decidido nos seus intentos – que os polícias não facilitaram – quis comprovar a veracidade de o Eduardo ser Lobito e dirigiu-se, com o pai do moço, à igreja do Bonfim. Falou com o sacerdote e ouviu o mesmo discurso da esquadra, mas acrescentado de mais valias!… Não havia cidadão mais correcto, ordeiro, fiel à Pátria e temente a Deus, do que o pai do Eduardo! De tal modo assim era que até quis que o seu filho fosse escuteiro e inscreveu-o nos Lobitos da instituição Católica, a classe dos mais novos dos seguidores da moral de Baden-Powell!
Perante o olhar incrédulo do militar, o padre foi buscar a lista com os nomes dos Lobitos… e lá estava! O Eduardo constava dela, e não era o último da lista… o seu nome figurava entre os primeiros!
Não se sabe se o capitão ficou convencido, mas sabe-se que não voltou a incomodar a família!… E o Eduardo nunca esqueceu a argúcia da sua avó nem a profunda humanidade do padre do Bonfim que teve um gesto tão protector.
É que o Eduardo… nunca foi Lobito!…
Memória
Eduardo José Ferreira, o Travassos, nasceu a 17 de Fevereiro de 1932 e faleceu a 29 de Dezembro de 2007. Contava 75 anos.
Jornalista/Cartunista







