Quantas noites de verão, no seu silêncio bucólico, são interrompidas pelas chamas e ventos fortes que rapidamente invadem as aldeias, consumindo tudo o que encontram pela frente. As chamas aterradoras, iluminam a noite, enquanto a fumarada espessa se espalhava como uma cortina de tristeza.
Não há verão sem incêndios nem inverno sem chuva. Num ápice, as labaredas ascendem aos céus e o dia escurece como se a noite, com pressa, surgisse desenfreada e se atirasse em seus braços.
Elas surgem de todos os lados e deixam feridas abertas na terra; a destruição mistura-se com o medo, o pranto e a aflição. As chamas, num bailado fantasmagórico e indomável, consumem os bens de uma vida, mas também sonhos e memórias.
E tudo o fogo levou…
São noites e dias de intensa dor e árduo trabalho: os olhos e o corpo sucumbem às mãos da força dantesca – homem e fogo numa luta de titãs e resiliência.
Em cada incêndio, uma história que se escreve na cicatriz de um arvoredo carbonizado. No olhar de quem perdeu tudo, só as preces distanciam as almas do inferno.
As marcas deixadas pelos incêndios vão além do físico. Elas plasmam a vida de uma comunidade que, apesar do sofrimento, encontra na solidariedade e na coragem a força para seguir em frente. Porque, no fundo, Portugal é uma terra de resistência, onde o fogo, embora destrua, também revela a força de quem luta para preservar o que é mais precioso: a vida, a memória e o futuro.
E depois das cinzas descerem à terra queimada e as lágrimas se terem esgotado, instala-se na alma, uma ferida invisível infetada de medo, insegurança e vulnerabilidade. Muitos veem as suas vidas perdidas e recomeçam do nada. Sustentam-se agora das memórias de dias felizes e sementes de esperança.
Entre cinzas e espera, cada gesto de apoio, cada palavra de encorajamento, é uma centelha de luz que ilumina o caminho da recuperação.
E às primeiras chuvas de outono o ventre da terra florescerá e tristemente até ao próximo verão…
São urgentes, muito urgentes, medidas robustas que invertam situações calamitosas como as que vivemos sempre que um raio de sol nos visita… Não suportamos ver as nossas aldeias e famílias dizimadas por mãos assassinas, incompetência e frugais medidas florestais e de segurança.
https://www.facebook.com/pages/Rosa-Fonseca-Autora/568961623172247
Professora e Escritora














