
Neste tempo em que as cidades correm o risco de se tornarem apenas vitrines polidas pela pressão do turismo, espaços como este lembram-nos que a verdadeira vida cultural não se fabrica para ser vendida — constrói-se, dia após dia, com a persistência de quem acredita no valor da criação. O atelier não é só um local de trabalho; é um organismo vivo, um epicentro onde o Porto se revê: diverso, inquieto, aberto ao mundo, mas fiel às suas raízes.
Luz Henriques, madeirense de origem, mas portuense por opção, soube transformar o seu percurso artístico numa prática que é, simultaneamente, íntima e coletiva. É impossível não notar como o seu trabalho reflete a sua identidade : um diálogo constante entre tradição e inovação, entre o gesto instintivo e a técnica depurada.

Mas este não é apenas um elogio ao talento de uma artista. É, acima de tudo, um apelo. O Porto precisa de proteger e apoiar estes núcleos criativos. Não basta orgulhar-se do seu projecto cultural; é necessário garantir que exista espaço para existir, crescer e desafiar-nos. Num momento em que a cidade enfrenta pressões imobiliárias e a tentação de uniformizar-se para agradar ao visitante rápido, lugares como este atelier lembram-nos que o valor do Porto está, também, naquilo que não é replicável.

O projeto “Montra Viva” é, talvez, a expressão mais clara da forma como Luz Henriques se liga ao Porto e às pessoas que o habitam e a rodeiam. Não é apenas uma programação artística — é um gesto de abertura, um convite à cidade para entrar e participar. Ao juntar artes plásticas, teatro, literatura, música e dança, Luz transforma o seu atelier numa verdadeira praça cultural, onde as fronteiras entre artista e o público se desfazem.
Esta iniciativa revela algo essencial na sua prática: uma capacidade rara de criar pontes com a comunidade local, não como um adorno ou obrigação, mas como parte orgânica do seu trabalho. É um compromisso genuíno, feito de colaborações inesperadas e de encontros que só acontecem porque existe ali alguém disposto a manter a porta aberta — literal e simbolicamente.

No “Montra Viva”, não se trata de apresentar arte para ser admirada à distância; trata-se de partilhar processos, ideias e experiências, transformando cada evento numa celebração coletiva. É por isso que este projeto não é apenas uma das marcas da Luz Henriques, mas também é um exemplo de como a arte pode, de facto, pertencer à comunidade que a rodeia.
O futuro da cidade depende da sua capacidade de manter vivos os espaços onde a mudança acontece — e de reconhecer que, sem eles, o Porto corre o risco de perder a sua identidade.

Atelier de pintura e cerâmica Luz Henriques
Rua Fernandes Tomás número 184, Porto.
Engenheiro/Colaborador














