Em Defesa da Última Toalha Livre

Notas de campo sobre um país que começou a desconfiar da própria arei

Mais artigos

Durante anos, milhares de portugueses passaram por metros e metros de areia vazia sem se atreverem a ocupar aquele espaço. Ninguém os expulsava. Ninguém lhes passava uma multa. Ninguém aparecia montado num cavalo para os perseguir até ao parque de estacionamento.

Mas havia uma placa. E isso bastava.

O português tem uma relação especial com placas. Uma pessoa olha para o mar e vê água. Olha para a areia e vê areia. Olha para um pedaço de céu e vê céu. Depois aparece um retângulo de metal com letras e, de repente, deixa de confiar em todos os sentidos que trouxe de casa.

O português não precisa que lhe proíbam uma coisa.

Basta suspeitar que alguém talvez pudesse proibi-la.

Nunca foi apenas sobre praia. É sobre a forma como nos habituámos a pedir autorização antes mesmo de alguém a exigir.

Aliás, a toalha portuguesa merece mais respeito do que costuma receber.

A toalha não é um pano. A toalha é uma unidade mínima de soberania.

Chega à praia dobrada e discreta. Cinco segundos depois já fundou um pequeno Estado independente. Há fronteiras. Há corredores de circulação. Há uma zona reservada aos chinelos. Há uma região estratégica para a geleira. Há um território sagrado para os telemóveis e uma área de conflito permanente onde alguém insiste em deixar areia dentro da sandes.

Os antropólogos estudam tribos remotas.

Eu gostava de os ver a tentar compreender uma família portuguesa a instalar-se numa praia de agosto.

Porque o português não vai à praia. O português desembarca.

Chega carregado com uma quantidade de equipamento que faria corar uma expedição polar. Arrasta um carrinho que protesta a cada metro. Transporta um guarda-sol que se comporta como um animal selvagem. Leva uma geleira capaz de sobreviver a uma interrupção global da cadeia alimentar. E, quando finalmente encontra um lugar, fica parado durante alguns segundos a observar o horizonte.

Parece contemplação.

Na verdade, está a avaliar riscos.

Vento. Distância da água. Proximidade dos vizinhos. Possibilidade de invasão infantil. Existência de uma bola de futebol em trajetória imprevisível.

Só depois começa a construção.

Talvez por isso tenha sido tão enternecedor ouvir que o problema se resolve com um desenho à entrada da praia.

Décadas de dúvidas.

Anos de interpretações.

Discussões ocasionais.

Suspeitas mútuas.

E, no fim, alguém conclui:

“Talvez precisemos de um desenho.”

Começa a ser difícil não sentir carinho por um país que acredita sinceramente no poder redentor de um esquema com setas.

Aqui é concessão.

Ali é segurança.

Mais além pode abrir a toalha.

Pronto. Resolvido.

Se a experiência correr bem, não me admiraria que o próximo verão trouxesse uma legenda para as ondas. Azul-claro para ondulação amigável. Azul-escuro para ondulação reflexiva. Verde para mar indeciso. E uma pequena comissão de acompanhamento do vento, embora o vento continue a revelar alguma resistência ao diálogo institucional.
Não excluo sequer a criação de um balcão único para assuntos relacionados com areia. Uma pessoa chegava, tirava senha e explicava:

“Bom dia. Pretendia existir durante três horas junto à linha de água.”

Recebia um comprovativo.

Voltava para a toalha.

Perdê-lo-ia vinte minutos depois.

E passaria o resto da tarde a evitar contacto visual com a fiscalização imaginária.

Como se o verdadeiro problema fosse cartográfico.

Como se a dificuldade nunca tivesse sido perceber a areia.

Talvez a dificuldade seja outra.

Talvez nos tenhamos habituado a desconfiar do espaço comum.

Talvez tenhamos passado tanto tempo a aprender onde não podemos estar que começámos a esquecer onde pertencemos.

Entretanto, o mar continua indiferente.

O mar avança quando lhe apetece. Também recua quando lhe apetece. Apaga linhas imaginárias. Move dunas. Engole passadiços. Altera a geografia sem preencher formulários nem consultar regulamentos.

É, francamente, um comportamento pouco colaborante.

Enquanto discutimos o último metro quadrado disponível para uma toalha, o Atlântico continua a recordar que nenhuma planta é definitiva.

Talvez seja por isso que a última toalha livre importa.

Não por causa da toalha.

Nem sequer por causa da praia.

Mas porque representa uma ideia cada vez mais rara: a possibilidade de chegar a um lugar sem precisar de comprar pertença.

Um pequeno retângulo de areia onde alguém pode simplesmente existir.

Sem senha.

Sem dúvida.

Sem culpa.

Gostava que esse retângulo permanecesse.

Nem que fosse apenas para nos lembrar que ainda há coisas que pertencem a toda a gente.

Porque uma sociedade saudável reconhece-se, entre outras coisas, pela quantidade de espaços onde ainda não é preciso pedir licença para existir.

E porque, convenhamos, se um dia precisarmos de um desenho para perceber o mar, provavelmente já chegámos um pouco longe demais.

VERSÃO BD

Criado em AI por Vangugh

 

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -Advertisement

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img