A vida costuma chegar primeiro à imaginação.
Só depois aparece realmente.
Antes de um encontro imaginamos conversa boa, química, qualquer coisa meio transformadora. Depois chegamos e a mesa abana, alguém diz “desculpa o atraso” já a mastigar uma pastilha elástica e o restaurante tem música tão alta que metade da ligação humana acontece aos gritos.
Antes das férias imaginamos descanso, silêncio, uma espécie de renascimento emocional com vista mar. Depois passamos duas horas num aeroporto a tirar carregadores da mochila enquanto um homem descalço discute porque a mala “claramente cabia”.
A expectativa normalmente vem filmada melhor.
Talvez porque o cérebro humano tenha esta mania antiga de ensaiar o futuro antes dele existir. Faz sentido. Sem isso ninguém criava projetos, relações ou filhos. Também ninguém comprava bilhetes para concertos com oito meses de antecedência para depois, no próprio dia, pensar honestamente: “se eu pudesse estava em casa”.
O problema aparece quando a imaginação começa a trabalhar turnos extra.
Na cabeça tudo chega mais limpo. Há ritmo. Há significado. Até o sofrimento parece mais bonito. Na vida real há trânsito, notificações, uma dor esquisita no pescoço e alguém a responder “vamos vendo” a uma pergunta que precisava claramente de definição imediata.
A desilusão raramente nasce só do acontecimento. Nasce da comparação.
Uma mensagem sem resposta durante cinco horas quase nunca são apenas cinco horas. Aquilo rapidamente vira investigação emocional. A pessoa relembra conversas antigas, analisa pontuação, entra em hipóteses absurdas e acaba a olhar para o ecrã como se estivesse à espera de resultados médicos.
E depois a resposta chega:
“desculpa só vi agora”.
Há qualquer coisa de profundamente cansativa e profundamente cómica no ser humano.
Crescemos a imaginar a idade adulta como um estado de estabilidade elegante. Pensávamos que os adultos sabiam o que estavam a fazer. Que percebiam seguros, impostos, horários e panelas antiaderentes.
Depois crescemos.
E percebemos que metade da vida adulta consiste em procurar passwords, aquecer o mesmo café três vezes e andar pela casa com um objeto na mão à procura desse mesmo objeto.
Outro dia perdi dez minutos à procura do telemóvel. Estava no bolso de trás. Nem tive uma reação digna. Só fiquei parado a olhar para a parede uns segundos. A cozinha estava em silêncio. O exaustor fazia aquele barulho baixo. Lembro-me disto porque pensei sinceramente: “pronto, é daqui para a frente”.
Mesmo assim continuamos surpreendidos.
Continuamos a acreditar que “desta vez” a realidade virá mais alinhada com aquilo que imaginámos. Como se o universo, finalmente, tivesse percebido o tom da conversa.
E depois chegamos ao quarto “com vista mar” onde o mar aparece apenas se nos inclinarmos perigosamente entre dois aparelhos de ar condicionado e um estendal de toalhas.
Talvez seja por isso que o humor funciona tão bem.
Porque quase toda a comédia humana mora aqui: na diferença entre aquilo que antecipámos sentir e aquilo que realmente apareceu. Entre o trailer emocional e os detalhes concretos. Entre a intensidade imaginada e alguém a perguntar se “quer contribuinte na fatura”.
Imaginamos transformação interior. Recebemos uma fila, um comprovativo e uma ligeira azia.
Mas apesar de tudo continuamos.
Continuamos a marcar viagens, encontros, promessas, projetos e recomeços. Continuamos a imaginar futuros ligeiramente melhores do que o presente. Continuamos a achar que o próximo café talvez venha quente, que a próxima conversa talvez corra melhor, que o próximo ano talvez finalmente tenha menos cansaço estranho.
E sinceramente?
Ainda bem.
Porque perder completamente a expectativa talvez fosse perder também uma parte importante da vontade de continuar.

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Projetos Culturais (R&D)














