A presidente da Câmara Municipal Coimbra deu uma lição de liderança, gestão de crises e comunicação, durante as tempestades que levaram ao aumento do caudal do Mondego que, saindo das margens, invadiu tudo em volta.
Ana Abrunhosa não teve “mãos a medir”, mas soube liderar, gerir e comunicar, num dos piores momentos vividos na “Cidade da Sabedoria“. A “liderança no feminino”, às vezes tão criticada e subvalorizada, demonstrou, aos que ainda põem em dúvida – e Portugal está, nos tempos recentes, a pôr muitas vezes em dúvida a capacidade da mulher na grande liderança – deu um exemplo que convém seguir por quem tem a nobre missão de exercer funções autárquicas. E de crises.
Tantas vezes calcorreei aquelas ruas, a qualquer hora, desde a manhã às madrugadas, de Santa Clara, à Portagem até à República, já na “alta” coimbrã, e olhava de passagem para o “Bazófias“* tão caudaloso no inverno e fiozinho no verão. Mas nunca pensei que um dia, muitos anos mais tarde, correriam o risco de ficar inundadas, destruindo habitações e espaços comerciais . Não és de fiar, Bazófias! Nos invernos os campos costumam ficar todos inundados (o que é positivo). Mas, como no início do presente ano, fenómeno nunca visto, dizem os mais idosos e que já presenciaram muitas desgraças.
Desta vez, até a icónica Igreja de Santa Cruz, onde repousam os restos mortais do Primeiro Rei de Portugal, ali ao lado da Câmara, esteve em risco.
Pois, risco foi coisa que não faltou durante estes dias de mau tempo na cidade de Coimbra. Valeu também à cidade ter uma presidente de câmara como todos deveriam ser. Usando a calma, poderação, antecipação, rigor, exigência, cuidados, procedimentos logísticos de emergência sempre em disponibilidade e presença constante junto aos cidadãos. Mas sem nunca ter medo das palavras. Afirmou que podíamos estar em presença de uma “cheia centenária” – felizmente não aconteceu. Mas completou a informação com a frase “A cidade está preparada para o pior dos cenários.” E comunicou com uma qualidade digna de elogios.
A autarca antecipou riscos, foi cautelosa, mas firme; nunca negou a adversidade. Foi franca, genuína e sempre optimista. Talvez por isso tenha conseguido convencer os habitantes em risco a respeitarem escrupulosamente as medidas implementadas pelas forças de segurança e da proteção civil.
Naquele fim de tarde, início da noite, em que, devido ao rebentamento de um dique, a A1 (cortada três horas antes), colapsou, Abrunhosa soube, sem medos ou taticismos, dizer à imprensa que queria saber, de imediato, quando é que a estrada poderia abrir, “Eu tenho muito medo da segurança; há infrestruturas que temos de analisar e só depois saber o que fazer.” Nada de pressas e precipitações. A segurança das pessoas, sempre em primeiro lugar.
As pessoas foram a prioridade da autarca. Como deve ser, afinal. Devem manter-se constantemente nas prioridades dos políticos. Infelizmente, não é assim. Com honrosas exceções, naturalmente. E são muitas! Ana Abrunhosa foi a “pedrada no charco” – deu uma lição de comunicação, na gestão de crises a muitos presidentes de câmara, à ex-ministra da Administração Interna, ao Primeiro Ministro e ao Presidente da República.
Estou a recordar as duas conferências de imprensa a que assistimos – Ana Abrunhosa entre Marcelo Rebelo de Sousa e Luis Montenegro. E o semblante de ambos ao fixarem o olhar na autarca, enquanto esta comunicava à população a grave situação em que viviam e as medidas a tomar para mitigar riscos (de vida).
Clara, concisa, direta, sincera (não procurava disfarçar a tensão que o seu rosto exibia), conhecedora dos problemas, punha “o dedo na ferida“, mas a coragem de lutar contra a desdita, dava às pessoas a esperança dos tempos difícieis.
Não necessitou de falar alto, ser demagógica, usar hipocrisia ou populismo, insultar tudo e todos, para chegar às populações e manter a sua confiança. Deu uma lição de liderança e comunicação. De Cidadania.
Quando alguém apresenta candidatutra a uma autarquia, deveria medir as suas caraterísticas e vocação para a função. Porque de um momento para o outro, a sorte muda e uma catástrofe vira tudo ao contrário. E se a postura do autarca não for adequada, em vez de ser uma solução, passa a problema, uma vez que, nesses momentos, todos são essenciais. E transformar uma tragédia em caso político é uma atitude de má-fé. Que Ana Abrunhosa não usou. Mobilizou em vez de dividir.
E agora? O furacão passou. Mas o rasto de destruiçaõ é imenso. Ana Abrunhosa vai ter pela frente a difícil tarefa de ajudar os cidadãos do concelho a regressarem à vida normal. Que vai demorar algum tempo.
Com certeza, através da sua forma de gerir crises, Ana Abrunhosa vai estar onde é mais necessária. E todos sabemos que, às vezes, a presença constante, o incentivo e a comunicação adequada, junta as populações, dá-lhes força e motiva a entreajuda. Fundamental nestes casos.
Não é fácil, mas como em tudo, ou há vocação ou não há. Desafortunadamente, vocação e política andam muito afastadas há já bastante tempo.
Ana Abrunhosa tem vocação. Razão e coração. E um longo caminho pela frente até ter os seus cidadãos instalados e o seu concelho devidamente organizado. “É preciso estar alerta“, disse nesta manhã de sábado. Para quem não a conhecia, uma “pedrada no charco” na Proteção Civil, na política e na defesa do seu território e dos seus cidadãos.
*Basófias: nome dado,carinhosamente, ao rio Mondego pelos velhos barqueiros, justamente por ser caudaloso no inverno e carregar pouca água no verão.
Jornalista







