Oposição ou falta de respeito?

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O partido Chega trouxe para a política, uma forma de fazer oposição a que não estávamos habituados.

Seja na Assembleia da República ou em debates, a oposição é feita em “alta voz”, sempre com “bicadas” a quem não comunga das mesmas ideias. Uma estratégia que, pelos vistos, agrada a grande parte dos portugueses. E que, provavelmente, vai alcandorá-lo  (ao partido) ao poder. Penso que não há grandes dúvidas quanto a isso.

Porém, esse “modus operandi” de contestar ideias contrárias, não será a mais virtuosa, antes pelo contrário, a uma geração jovem, pouco habituada a debates “duros” em assembleias. A ideia que fica é que vale a pena interromper o adversário, provocá-lo, falar alto, manipular com assuntos que nada tenham a ver com o que é discutido no momento.

É uma estratégia de comunicação, sem dúvida. Mas pouco edificante para quem a utiliza (independentemente de surtir o resultado eleitoral desejado) e muito má para quem assiste e pretende conhecer os pontos de vista dos oponentes. Confundir, dividir, criar ruído. É mau quando um povo fica identificado com tais formas. Sente-se, assim, uma espécie de vergonha alheia.

E quem tem por motivos pessoais ou profissionais de participar em assembleias gerais de diversa índole, ou presidi-las, confronta-se já com estes princípios pouco produtivos no essencial. Gera-se, não uma opinião contrária, uma massa crítica esclarecida, disposta a trocar argumentos, com elevação e respeito pelo contraditório, mas um confronto vazio, um jogo competitivíssimo de uns contra os outros. Sem grande convicção por ideias ou projetos, sem “bom senso”. importa o “lado” em que está o cicrano e o beltrano. Mais nada. A oposição não é para ouvir, é para arrasar, destruir, insultar. E daqui aos ódios, é um pequeno passo. Os resultados estão, claramente, à vista.

A Assembleia Constituinte comemorou 50 anos. Os deputados dessas primeiras eleições livres em Portugal depois do 25 de Abril (tanta polémica causaram, pois havia partidos que não queriam ir para eleições) foram, e muito bem! Convidados a participar nas comemorações. Escrevo novamente – convidados.

Dessas eleições (elaborou a Constituição da República Portuguesa em democracia e já sete vezes revista), lembremos os resultados:

Votaram 91, 6% dos recenseados, em 25 de abril de 1975

PS (Mário Soares)  37,9%

PPD (Sá Carneiro)  26,4%

PCP (Álvaro Cunhal) 12,5%

CDS (Freitas do Amaral) 7,6%

MDP (Pereira de Moura)  4,1%

Os senhores eleitos nesta data e que foram convidados par a “Casa da Democracia”, mereciam ser bem recebidos e, principalmente, respeitados. Muitos deles lutaram, abnegadamente, contra a ditadura. E, uma grande maioria, serviu a Nação com voluntarismo e Cidadania. As generalizações são sempre perigosas.

Dizia o professor Henrique de Barros, Presidente da Assembleia Constituinte, nas suas últimas entrevistas, que os trabalhos tinham sido duros, muitas vezes difíceis de gerir e com imensas ideias divergentes. Mas sempre com discussões elevadas e de respeito pelo contrário. Lapidar!

O que aconteceu ontem, na Assembleia da República e perante convidados tão ilustres, muitos deles já octogenários, foi surreal.

Completamente alheado da época, da história, dos factos e do princípio elementar do respeito por quem é convidado para nossa casa, André Ventura não tardou a “engatilhar o fuzil” e disparar sobre os “esquerdistas” e “socialistas”. Cuidado! Terrorista é um termo pouco consensual. Estará bem aplicado às “FP25”  (um grupo que nada tem a ver com a data), tal como ao ELP, MIRN ou MDLP, em 1975/6.

Na democracia, deviamos ser honestamente intelectuais e respeitar as datas e os contextos. E usar boa educação para quem é convidado para “nossa casa”.

E não esquecer que certos políticos funcionam como modelos para as gerações que estão, agora, em vias de enveredar pela política partidária.

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