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Domingo, Fevereiro 15, 2026

Grandes referências partem e o Jornalismo fica mais pobre.

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“Ser bem informado é um direito que nos assiste” – Costa Carvalho

O jornalista Costa Carvalho deixou-nos. Ontem, 15 de janeiro de 2026. Aos 92 anos.
Iniciou a sua carreira profissional no “Jornal de Notícias”, quando eu perfazia um ano de idade.
Tive o privilégio de o conhecer 18 anos mais tarde, em Coimbra, e por mero acaso. A Associação Académica promoveu uma “sessão de esclarecimento” – chamo-lhe assim, pois não recordo o nome exato do evento – sobre jornalismo para estudantes universitários; como eu colaborava – de forma muito inconstante – num jornal local, informaram-me, à última da hora, que ia haver uma “formação” em jornalismo na AAC.

Foi num anfiteatro da Faculdade de Letras. E o palestrante, nortenho de convicção e amarantino de coração, apresentou-se – José Costa Carvalho. Chefe de Redação do matutino portuense, “O Comércio do Porto.”
Estávamos em 1978 ou 1979. E de colaborador incipiente da imprensa local, depois de ouvir o Mestre, percebi para onde queria dirigir o meu futuro. Teria que deixar algumas coisas para trás, mas, na época, todos deixávamos algo para sermos jornalistas.
E Costa Carvalho não pintou a profissão de “cores apelativas”. Como sempre, foi rigoroso e verdadeiro. Misturando dureza com afeto, disse a (sua) verdade, que passou a ser também a minha – “Esta profissão não é para todos, só para os que consigam resistir a sacrifícios.” Mais tarde, Kapuscinski (foi Costa Carvalho quem me falou deste jornalista/autor) escreveria “Os cínicos não servem para este ofício”.

Mal sabia eu, naquele momento, que iria cruzar-me mais vezes com Costa Carvalho. E conhecer, na “pele”, o seu afamado mau feitio. Mas a resistência ao sacrifício – lá está, ele bem avisou – encarregou-se de ajudar-me. Foi meu Diretor, Chefe de Redação e Editor, em momentos diferentes.

O Costa Carvalho foi um grandíssimo jornalista e não inferior mestre para quem teve a felicidade de ser por ele dirigido. Rigoroso, competente, exigente até ao limite. Um purista do Jornalismo. E da escrita.

Não deixava que avançássemos com uma notícia mais importante ou fraturante sem testar muito bem a fonte ou as fontes. Se entendia não ser suficiente o que tínhamos para assegurar a veracidade da informação, mandava-nos testar melhor a fonte. E quantas vezes o fizemos! O que levava o leitor a confiar absolutamente no que lia. E isso enchia-nos de orgulho.

“O Jornalismo é uma coisa muito séria. Uma informação pouco rigorosa pode causar danos incalculáveis.” – disse-me, algumas vezes. “E as pessoas merecem respeito”. Costa Carvalho dixit.

Havia “três” Costa Carvalho – o da Redação, o professor e o camarada fora da Redação. Dentro do Jornal, um bloco de gelo, rigorosíssimo e sempre atento. Uma vez, depois de ver um texto meu, disse-me algo assim. “Há aspetos básicos, mas essenciais, e tu sabes quais são, para a redação de uma notícia. Se algum desses princípios faltar, podes ter escrito um belo texto de propaganda ou um panfleto, o que quiseres, mas peça jornalística é que não é.” – serviu-me de lição para a vida inteira. O professor. Pouco convencional, mas de uma eficácia tremenda; fora do Jornal, um igual a nós, bom contador de histórias e amigo de quem precisasse dele. A Cidadania estava no seu ADN enlaçada no jornalismo.

Esta insistência na qualidade, no rigor, na clareza, nas fontes, no distanciamento, na humildade, que não subserviência, e no respeito pela profissão e por nós mesmos, tanto “bateu” que entrou.

E entrou em quase todos os jornalistas que, como eu, começaram o ofício no início de 80 do século passado. Alguns, mantivemos esta postura, outros preferiram “encostar-se” a interesses vários, nomeadamente ao poder e ao dinheiro – opções.

Estou convicto de que o jornalismo nortenho – num tempo em que no Porto havia três matutinos nacionais, um semanário e um diário desportivo – teve em Costa Carvalho um dos seus elementos mais dinamizadores. E foi graças a jornalistas como ele que o panfletarismo do “PREC” passou a jornalismo sério e rigoroso.

E também tenho a certeza de que os meus camaradas dos anos 80, tendo-o como Chefe de Redação ou professor, passaram a encaram a profissão de uma forma muito interessante nos princípios. E, se calhar, os que ainda labutam, seguem essa verticalidade.

Costa Carvalho deixa saudades. Pessoalmente, foi uma referência. Já ele não exercia e, numa mesa de café, voltámos a conversar sobre os critérios editoriais, assunto que sempre me despertou imenso interesse. Aconteceu há cerca de dez anos. Depois, nunca mais o vi.

Por estes dias, a propósito da notícia que envolve um candidato à Presidência da República e que acusa os jornalistas de lhe terem “causado danos pessoais incalculáveis” , lembrei-me do Mestre. Que bela conversa teríamos a discutir este assunto! Dava-nos para uma tarde inteira.

Desafortunada coincidência – um dia ou dois depois, surgiu a notícia do seu falecimento.

Fiquei sem interlocutor para temas de natureza editorial. Mas todos nós, Jornalistas, ficámos a perder. Um camarada que era uma referência do bom profissionalismo. Da Velha Guarda, como já há poucos.
O Jornalismo, de uma forma geral, fica mais pobre, mais vazio, mais triste.

Custa-me sentir que os princípos que o Costa Carvalho nos ensinou estão a degradar-se. E os jovens que ainda ousam avançar para o Jornalismo clássico, ficam sem referências, perdidos entre o “canibalismo (des)informativo” das redes sociais e a manipulação de administrações sinistras.

Infelizmente, os mais jovens profissionais não imaginam a falta que homens como Costa Carvalho fazem ao Jornalismo. Passem os anos que passarem.

“O Cidadão” presta-lhe a merecida homenagem.

Obrigado, Mestre!


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