Com um resultado provisório de 66,8% (falta a votação das regiões que não o puderam fazer devido às inundações), António José Seguro é o novo Presidente da República, cuja posse está agendada para os primeiros dias de Março. O adversário, na segunda volta, foi André Ventura que obteve 33,1%.
Se a vitória de Seguro era previsível face aos apoios que foram sendo manifestados, o resultado de Ventura era de crucial importância, em função das pretensões do candidato e do seu partido, principal opositor do governo da AD.
Estiveram em confronto dois estilos e formas de encarar a política muito difererentes. Um Seguro moderado, social, cauteloso (excessivamente, dizem alguns), defensor acérrimo da Constituição, congregador, político “low profile”, frente a André Ventura, estridente, nacionalista, defensor de valores caros às extremas-direitas europeias e detentor de um discurso aguerrido, por vezes demasiado agressivo. No frundo, o candidato do Chega pode ser designado como um presidente que deseja exercer o seu consulado com “pulso de ferro“.
A grande dúvida que fica, não é tanto a coabitação governo-presidente, mas a relação governo-oposição.
Marcelo Rebelo de Sousa e António José Seguro serão diferentes no estilo, com certeza, mas muito próximos na forma de pensar a política. O Primeiro Ministro terá ficado satisfeito com o resultado eleitoral. Veremos se terá razões para isso. Quanto ao Presidente da República, talvez, quanto ao resto…
Mas, sem demonstrar, Luís Montenegro deve estar preocupado. Pudera! Tem razões para isso. Mais com os números obtidos por Ventura do que com o vencedor do sufrágio. Como não ficar, quando a sua coligação (AD) teve menor percentagem nas legislativas do que a obtida pelo presidente do Chega nas presidenciais ( 33,1% contra 31,2%)?
A esmagadora vitória de António José Seguro, quase 67% de votos, é proveniente de diferentes partidos e sensibilidades – PS, PSD, PCP, BE, Livre, IL (poucos) e independentes diversos; o mesmo não poderá dizer-se do resultado de André Ventura.
Os votos do líder do Chega (33,1 %) são, quase na totalidade, dos apoiantes do seu partido. Com uma ajuda do ADN (sem grande expressão, todavia) e de grande parte dos votantes de Cotrim de Figueiredo na primeira volta.
Com esta margem, Ventura intitula-se o grande representante da direita portuguesa (exagerado, claro, porque grande parte da direita – a tradicional direita democrática, dos “velhos” PSD e CDS – não se revê no “modus operandi” e nos ideais proclamados pelo Chega), mas tem poder retórico e político suficientes para causar dores de cabeça a Montenegro e ao Governo.
André Ventura quer ser Primeiro Ministro de Portugal. É uma ambição que nunca escondeu. Quer “mudar o país“, “acabar com a corrupção“, “mudar o sistema“, “alterar a Constituição” e “criar uma Quarta República“. Com uma percentagem superior à do Governo vai, naturalmente, aumentar a agressividade verbal e tornar a oposição mais forte e mais firme. Terá o governo minoritário capacidade de lutar contra? Ou, mais dia menos dia, começará a vertigem das moções de confiança e censura?
Ventura tem, como nunca, um “caminho aberto” para abanar o Governo. E se este cai, o Chega pode esfregar as mãos de contentamento, pois surgiu a sua hora de governar e de mostar aos portugueses o que, relamente, vale.
Em suma, um novo presidente que quer estabilidade e uma reforçada oposição (Chega) com nova oportunidade e grandes condições para ficar com o poder já no início do próximo ano. Um desafio também para o PS, que pode vir a ser a única força partidária capaz de fazer frente à direita de Ventura – embora não pareça capaz de o conseguir sozinho.
Uma coisa é certa. Estas Eleições Presidenciais foram muito mais do que isso. E podem mexer de forma substancial com a política portuguesa.
Jornalista







