A parte mais difícil de uma ideia é aquela em que o criador tem de a passar a escrito.
Enquanto navega na nossa mente, ela é livre de mudar as vezes que forem precisas até encontrar a melhor versão de si mesma, sem que com isso se comprometa demasiado sobre o que é, como é, de onde veio e para onde quer ir.
Ela pode ainda distrair-se com outras ideias que vá encontrando nesse tempo / espaço, e quem sabe, até aproveitar partes das outras ideias, para evoluir e melhorar a si própria, sem que para isso tenha de abdicar da sua razão de existir.
A primeira fase da dificuldade da ideia é quando ela quer sair da mente, e aproveitando o tempo do pensador, ela pede, grita, exige ser escrita, ser materializada, esquecendo-se que também é aí que ela perde a liberdade. Perde toda a privacidade e passa a ser observada por todos.
É neste momento que começa o desafio!
Ela tem de ser forte o suficiente para resistir à opinião dos outros, para que possa com humildade e resiliência, aceitar quer os elogios, quer a sua desvalorização, remetendo-a para tantos – demasiados e diferentes – universos de observação, quantas as emoções e razões daqueles que a observam.
Muitos, que não a compreendem, por vergonha, vão tentar diminui-la ao nível de absurda, outros tantos por ignorância da sua utilidade ou até por exagero do ego, dir-lhe-ão que ela não serve para nada e é absolutamente desnecessária, e muitos também, por reconhecerem o seu verdadeiro valor e real funcionalidade, sentir-se-ão ameaçados por ela, remetendo-a para a conveniência ou comodismo da indiferença.
Então, é aí que ela percebe que a liberdade que ela tanto queria, na realidade estava em todos os momentos em que viajava na mente do seu criador, sem amarras ou observações, e aí vivia uma felicidade, mesmo que ilusória.
Quando escrita, materializada, a ideia começa a sentir o fim da ilusão, condicionada pela agressão dos observadores que, nas suas próprias deficiências e incapacidades, a tentam condenar ao isolamento no qual só a solidão a aceita. E com o passar do tempo, ela deixa de visualizar o sentido com que foi gerada.
Mas há ainda aquele momento, em que o seu criador lhe dá, contra tudo e contra todos, a dose de atrevimento e coragem necessária para que ela possa passear pela folha de papel, e se materializar na escrita, até que todas as possíveis versões de si mesma, passem a ser uma única versão, a mais pensada de todas, a mais trabalhada de todas, a mais esforçada de todas, a mais honesta de todas.
Porque quando a ideia já se conhece a si própria, já se reconhece com a humildade de que dificilmente poderá ser igual, aos olhos dos diferentes observadores, ela ganha maturidade e mostra-se com a maior das certezas de que ela não é só, mas também é, o que orgulhosamente deseja vir a ser.
Sociedade Civil!

Administrador Executivo da Pluralidades / Gestor














