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Domingo, Janeiro 18, 2026

Quando os poderes empurram para trás

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No passado fim de semana tive o privilégio de apresentar o livro de Víctor Carvalho, “O Cidadão para os Cidadãos” na Casa das Beiras em Lisboa.

Coube-me a honrosa tarefa porque o livro junta um conjunto de artigos de opinião e crónicas do autor, publicados durante um ano, em ”O Cidadão”. O convite para falar sobre ele, teve a ver a com a minha função de diretor e editor do jornal.

Em boa hora o autor escolheu a Casa das Beiras para apresentar um livro sobre Cidadania na capital do país.

Num momento em que a literacia mediática, a necessidade de incentivar a leitura e o avanço avassalador do analfabetismo funcional, preocupa os agentes que veem a participação cidadã cada vez mais frágil, é de particular importância usar as casas regionais e outros espaços associativos para a apresentação de livros.

Como era previsível, na participada discussão que aconteceu após a apresentação da obra, o associativismo também esteve no centro das conversas.

A conclusão, também previsível, foi um leque de reclamações – custos, burocracia, pouco interesse por parte dos poderes políticos e económicos. Mas também propostas de soluções.

Por cá o que não dá lucro tem pouco interesse, poucas ajudas e, em alguns casos, nenhuns incentivos. Ora, quando os cidadãos estão anestesiados, em casa, agarrados a redes sociais e programas de televisão de duvidosa qualidade, seria imperioso haver por parte de quem dirige Portugal, a promoção e forte incentivo ao associativismo e cooperativismo.

Na realidade, isso não acontece. Antes pelo contrário. Quase 500 euros na “Associação na Hora” e, depois, uma odisseia para abrir conta bancária (obrigatória) – certos bancos disseram a  O Cidadão que não têm interesse em abrir contas para associações… e estamos só no início do processo…

No litoral, com mais ou menos dificuldade, vamos conseguindo abrir associações. As pessoas (totalmente instrumentalizadas pela palavra mágica: dinheiro) custam a mobilizar para um trabalho que não é pago. O interesse de todos ou o bem comum, se preferirem, é coisa de somenos para alguns (sempre demasiados por poucos que sejam). O individualismo causa mossa à comunidade. Se causa!

Mas estar numa casa regional, com alguns beirões de rija cepa, faz-nos pensar no que acontece há já alguns anos nas regiões do interior. Além de todas as dificuldades enunciadas atrás, coloca-se outra – tão ou mais grave. Há municípios que não possuem jornais ou rádio locais (ou têm-nos, mas são totalmente controlados pela autarquia e pelas igrejas), nem quiosques para venda de jornais. Onde vão as pessoas encontrar a informação? Nas pérfidas redes sociais ou na tóxica televisão. Apenas. Isto é lamentável! Diria mesmo, inaceitável.

Para dar cabo do que ainda existe, a VASP, que distribui livros e jornais em concelhos do interior, ameaça (há quem considere bluff e estratégia comercial) extinguir este serviço. Um senhor chamado Marco Galinha, empresário de sucesso, é o investidor maior da empresa. Tem (ou teve) participações sociais de vulto na Global Notícias. Será, queremos acreditar, uma pessoa responsável e entenderá a problemática. Todos estamos recordados das dificuldades por que passaram a TSF , o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias, títulos dessa empresa de comunicação social. Parcialmente resolvidos.  Agora é a VASP, do mesmo senhor, a ameaçar os concelhos do interior com a falta de jornais e livros. Que estranha coincidência… Que seja apenas isso.

Face a tudo, é legítimo pensar que os poderes (políticos e económicos) querem destruir os jornais ou privar as pessoas de os lerem. Principalmente as do interior do país.

Já para não falar na legislação das rádios locais – a famigerada Lei da Rádio. Tão rigorosamente aplicada (e bem!) na atribuição de novas antenas nos finais dos anos 80, acabando com as “rádios piratas”, é hoje uma miragem. Pouco é cumprido e as propriedades constituem quase um monopólio evangélico. Os governos preocupam-se com este atropelo gravíssimo? Não! Como canta o Carlão, “assobiam para o lado.”

As pessoas estão preocupadas, mas não sabem o que fazer. E as sugestões existem. Na Casa das Beiras, em Lisboa, foram enumeradas algumas. Como pô-las em prática? Essa é a dificuldade-mor.

Também ouvimos, nessa sessão de Cidadania em Lisboa, mas dirigida ao interior, pessoas a indignarem-se por o movimento associativo estar “sistematicamente a pedir verbas públicas” para avançar.

A resposta é que, mesmo sem dinheiro, há corajosas e corajosos que, no meio de toda a “tempestade”, avançam. Já encaram as verbas públicas como “utopia”. Um dia chegarão.. . O problema é quando os poderes, além de não darem ajuda financeira, ainda empurram para trás. E aí, é o drama absoluto, a destruição do associativismo e de outras iniciativas cidadãs.

Nota: O associativismo e cidadania refere-se ao que é exercido com rigor, isenção, honestidade e solidariedade. Para servir. Não o que é “exercido” por oportunismo, para burlar, corromper ou enganar. Isto não é associativismo, é crime e está fora desta discussão.

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