A ditadura do “para ontem” – Quando a engenharia se torna improviso permanente

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No sector automóvel, vive-se numa espécie de realismo mágico corporativo. Um mundo onde as leis da física e da logística podem ser contornadas se gritarmos “prazo final” com a intensidade suficiente. Einstein descobriu a relatividade do tempo. O sector automóvel foi mais longe e descobriu que o tempo pode ser simplesmente ignorado, desde que haja uma data de lançamento num PowerPoint. Se Einstein tivesse trabalhado na indústria automóvel, provavelmente teria concluído que o espaço-tempo é flexível, mas o prazo de SOP (start of production) é sagrado.

A cena é recorrente e tornou-se quase um ritual. Temos um projeto de automação para uma peça nova que vai ser incorporada num novo veículo. O cliente quer a máquina a trabalhar dentro de x meses. O problema? A “tal peça”, essa protagonista esquiva da história, ainda está a ser desenhada, redesenhada e, vamos lá, “levemente optimizada” semana após semana, tal como o carro onde vai ser montada. A peça de março já não tem qualquer parentesco genético com a peça de janeiro.
Cada revisão chega embrulhada num e-mail tranquilizador: “são apenas pequenas alterações.” A expressão “pequenas alterações” na indústria automóvel merece uma classificação própria, algures entre a ficção científica e a comédia negra. É como quando um agente imobiliário descreve um apartamento de 40 metros quadrados como “acolhedor”.

Entramos então num bailado bizarro: estamos a projetar máquinas para uma peça que é uma miragem. Discutimos orçamentos durante meses porque ninguém sabe ao certo o que vai ser fabricado, mas o prazo final? Esse é sagrado. Intocável. Imune às mutações do produto, às crises identitárias do design e às leis básicas da causalidade. O produto pode mudar de forma como um camaleão em pânico. O prazo fica ali, firme, como monumento à teimosia humana. Já vi projetos onde a geometria mudou três vezes, o processo duas e até o fornecedor foi trocado. O prazo, esse, permaneceu puro e imaculado, como uma relíquia religiosa.

O resultado, como qualquer pessoa que já sujou as mãos numa fábrica sabe, é o famoso on-the-fly. “Fazemos as alterações durante a montagem.” Frase que, traduzida do corporativo para o português corrente, significa: “não planeámos nada, mas alguém vai resolver isto.” Esse alguém, curiosamente, nunca é quem disse a frase.

Gerir um projeto neste sector não é engenharia. É uma cirurgia de emergência feita com um canivete suíço enquanto o paciente corre uma maratona e o diretor do hospital pergunta, de meia em meia hora, se já está pronto.

E quando o caos inevitável acontece, a amnésia é instantânea e coletiva. Ninguém se lembra das centenas de horas gastas a corrigir o incorrigível por causa de alterações chegadas na véspera. Ninguém se recorda das reuniões às 23 horas, dos fins-de-semana oferecidos ao altar do calendário de lançamento, das peças redesenhadas três vezes por razões que entretanto ninguém consegue explicar. A data estava no PowerPoint, adata foi cumprida. Glória a Deus nas alturas. Três meses depois, alguém apresentará o projeto numa reunião de lições aprendidas e concluirá que “no geral correu bastante bem”.

Esta obsessão pelo imediato deve ter um nome clínico qualquer parecido com “dopaminismo empresarial”. Queremos o prazer de ter o carro no mercado na data prometida, mas recusamos a dor de aceitar que o desenvolvimento precisa de tempo para ser feito com alguma dignidade. É querer emagrecer dez quilos em duas semanas. Possível, talvez, mas com um preço que ninguém quer ver na fatura.

O que se cria, entretanto, é um sistema de incentivos perversos: o “bom gestor” é aquele que consegue empurrar o problema para a frente com um sorriso, o “bom operacional” é o que tapa os buracos de um planeamento que nasceu morto e ainda agradece a oportunidade etoda a gente aplaude. Até à próxima vez.

A verdadeira vantagem competitiva em 2026 não é conseguir fazer o impossível em tempo recorde. É ter a maturidade (e a coragem, já agora) de dizer: “se o produto muda, o prazo também muda.” Esta frase está apenas duas posições abaixo de “vamos cancelar a reunião” na lista das ideias mais revolucionárias do século XXI.

A automação pode substituir o trabalho repetitivo. Mas ainda ninguém conseguiu inventar uma solução capaz de resolver a falta de bom senso de quem gere o calendário. E enquanto continuarmos a tratar a engenharia como um serviço de entrega ao domicílio – rápida, barata, sem perguntas -, o único produto que vamos mesmo entregar a tempo é o esgotamento de quem, na segunda-feira seguinte, ainda tem de aparecer e fingir que está tudo bem.

O verdadeiro milagre da indústria automóvel não é produzir milhões de carros. É conseguir cumprir prazos que nunca fizeram sentido desde o primeiro dia.


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