A indústria hoteleira arvora-se em apresentar-se como o sustento dourado do turismo nacional. Devia ter vergonha. Existem em Portugal entre 1.300 e 1.400 unidades hoteleiras. De todo o género e estrelato. Temos desde hotéis superluxuosos a unidades de três estrelas com atendimento familiar. Abordemos o que se passa nos grandes hotéis, alguns pertencendo a grupos famosos que gerem várias unidades em Lisboa, Porto e Algarve.
O Jorge Vicente tirou, com a ajuda dos pais, um curso superior de gestão hoteleira durante quatro anos. No final do curso, respondeu a um anúncio para director-adjunto de um hotel muito credenciado da capital. Entre os concorrentes ficou em primeiro lugar e foi admitido ao trabalho. Começou a laborar, substituindo o director, entre as 17.00 horas e a meia-noite, com um rendimento inacreditável: o salário mínimo nacional. O Jorge tinha que pagar um quarto por 400 euros, alimentação e uns pequenos extras. Não lhe restava um euro. Ao fim de um ano pediu aumento de salário, pagamento a dobrar pelo trabalho aos feriados e domingos. Não pediu o pagamento a dobrar pelas horas nocturnas. Resposta da administração: “Não doutor Jorge, você tem de adquirir experiência e mostrar a sua capacidade durante cinco anos para ser aumentado”. O Jorge, que já resolvia os mais diversos problemas existentes no hotel, incluindo queixas dos clientes e era admirado pela sua educação, cordialidade e eficiência profissional por todo o pessoal do hotel, limitou-se a apresentar a demissão e foi procurar algo de melhor. Quando apresentou o seu currículo a hotéis de luxo no Algarve, responderam-lhe afirmativamente, mas com um salário de 900 euros, teria de alugar um quarto no mercado caríssimo algarvio e o contrato precário seria apenas entre Junho e final de Setembro.
É esta a verdadeira realidade na hotelaria portuguesa: a exploração da mão de obra, tendo os hotéis lucros astronómicos. Uma exploração que não vem nas páginas dos jornais nem nos programas de televisão. A indústria hoteleira apresenta-se ao mundo como uma das melhores do planeta, mas pouca gente sabe que desde as senhoras que limpam os quartos, quem trabalha na recepção e quem dirige um hotel, todos são absolutamente explorados pelo baixo e infame pecúlio que recebem.
E o Jorge Vicente? Bem, como é óbvio, este país não é para jovens e está agora na Suíça, como director de uma unidade hoteleira a vencer pelo seu trabalho 6.000 euros e a administração cedeu-lhe uma suite…

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