Prometo Pagar

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Olhas para a moeda que brilha na palma da tua mão e pensas no absurdo do mundo. O parque de estacionamento do supermercado está cheio, as luzes da festa da cidade piscam ao longe, e ali está ele. Um homem feito de cansaço, de vento e de invisibilidade. Ele acena com os braços, desenha círculos no ar com um pano gasto, fingindo guiar um carro que tu guias sozinho, fingindo orientar uma manobra que o teu espelho retrovisor já resolveu. Há um teatro montado no alcatrão. Um bailado mecânico onde o guião exige que ele finja que ajuda e tu finjas que acreditas. É o ritual do costume. O guião que ninguém escreveu, mas que toda a gente decora.

Dás a moeda. Não dás pelo serviço, porque serviço nenhum foi feito; dás pela presença. Dás porque ele está lá. Ele recebe porque está lá. É a taxa de ocupação do desespero, o imposto invisível que pagamos para não termos de olhar nos olhos a miséria que nos rodeia. Tu não estás a pagar por um estacionamento facilitado; estás a pagar pelo teu próprio sossego, pela trégua temporária na tua consciência limpa. O arrumador não arruma carros, arruma o teu desconforto. Ele recolhe as moedas que lhe atiras para que o silêncio dele não te grite os teus privilégios à cara. É uma transacção muda entre quem tem tudo por fazer e quem já só tem o dia de hoje para sobreviver.

Porque é que o mundo continua a aceitar esta coreografia da esmola disfarçada de trabalho? Não sabes. Ninguém sabe. O supermercado factura milhões, a festa gasta milhares em fogos-de-artifício que iluminam o céu por dez minutos, e no chão, onde os pés pesam, perpetua-se a tradição da migalha. Uma moeda que compra o direito de não te riscarem o carro, ou talvez, quem sabe, o direito de não te riscarem a alma.

É a burocracia da sobrevivência nas margens da sociedade. Uma dança macabra onde a dignidade é uma moeda de cinquenta cêntimos que cai num bolso furado, enquanto o motor do teu carro topo de gama arranca sem olhar para trás. Ficas a pensar nisso enquanto pões a primeira mudança. O homem já se virou para o próximo carro, repetindo os mesmos gestos mecânicos, a mesma ilusão de utilidade. O que nos prende a este ciclo de dar a quem nada faz, só porque não sabemos o que fazer com quem nada tem? É a engrenagem social que range, que dói, que se arrasta no tempo sem que ninguém mude a direcção. No fim do dia, a moeda muda de mão, o parque esvazia-se, mas a miséria continua exactamente no mesmo sítio. Arrumada. Escondida à vista de todos, no lugar mais movimentado da nossa indiferença.

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