As coisas que se vão sabendo, a conta-gotas, a partir de documentos desclassificados pela Justiça norte-americana, mostram-nos em que medida a extrema-direita conspirou contra o Papa Francisco e financiou partidos extremistas europeus, segundo um texto assinado pelo jornalista Iñigo Domínguez, publicado no jornal espanhol El País no último dia 6 de Fevereiro.
Esta afirmação é confirmada pelas mensagens que o financeiro norte-americano – condenado por crimes sexuais, Jeffrey Epstein – trocou entre 2018 e 2019 com Steve Bannon, ideólogo político de Donald Trump durante o seu primeiro mandato na Casa Branca (2017-2021).
Nesse ano de troca de missivas, Donald Trump financiou partidos populistas de extrema-direita na Europa para interferir nos resultados eleitorais da União Europeia em 2019 (os quais, por Portugal, elegeram 9 deputados do PS, 6 do PPD, 2 do BE, 1 do CDS e 1 do PAN).
Da estratégia política de Trump para fomentar discórdia na Europa em favor dos interesses dos EUA, também fazia parte o ataque ao Papa Francisco, com a ajuda do lado mais conservador do Catolicismo na América que via o sumo-pontífice como um “anti-Cristo”.
Na época, Bannon proferiu esta frase muito clara da intenção dos EUA perante o mundo: “Derrubaremos Francisco, os Clinton, Xi e a União Europeia”. Palavras que foram ditas a Epstein em 19 de Junho de 2019, pouco antes de este ser preso (o que aconteceu a 6 de Julho, e morreria na prisão um mês depois, por suicídio).
Esta má vontade contra Francisco não era novidade. O seu estilo de pontificado (ecologista, crítico do capitalismo, defensor dos imigrantes abrindo a Igreja a homossexuais e às mulheres, e com aproximação aos países do Sul e à China) era tudo quanto Trump não queria, o que transformou o Papa em inimigo dos conservadores católicos norte-americanos.
Abriu-se, então, uma feroz guerra interna sem precedentes na História recente da Igreja, a partir de um núcleo duro de cardeais que começaram a enfrentar, publicamente e sem qualquer pudor, o Papa Francisco. Inclusivamente, este sector constituído por inimigos do Papa, financiou campanhas contra Francisco em vários meios políticos e financeiros, tanto nos EUA como na Europa.
O próprio Bannon instalou-se em Roma, no luxuoso Hotel da Rússia, de onde divulgou a sua antipatia – que não escondia a ninguém – como modo de conseguir aderentes para a sua causa “anti Papa Francisco”, conseguindo o apoio de ultra-direitistas, como o italiano Matteo Salvini, secretário do partido extremista Liga Norte desde Dezembro de 2013 e euro-deputado de 2014 a 2018. Apoia a Rússia na guerra que faz à Ucrânia, opõe-se à imigração (que considera ilegal) e critica a forma “branda” com que a Europa lida com a questão das pessoas que procuram asilo político.
Jorge Mário Bergóglio (Papa Francisco) não era um bispo qualquer. A sua inteligência não beata dava-lhe espaço de alcance para perceber a campanha que estava a ser urdida contra si, e no auge dos ataques que lhe dirigiam, chegou a comentar sem qualquer receio: “Para mim é uma honra ser atacado pelos americanos”.
A estadia de Bannon em Roma não tinha por finalidade, apenas, a luta contra Francisco. Nas mensagens trocadas com Epstein e agora divulgadas, também se fica a saber a vertente política de Bannon na Europa, tentando criar uma organização que era referida como “O Movimento”, uma rede de partidos populistas europeus para dinamitar a União Europeia a partir de dentro.
Entre Março de 2018 e Maio de 2019 Epstein ficou a saber, por Bannon, quais foram os seus esforços para recolher fundos para Le Pen e Salvini da AfD, dizendo numa das suas missivas: “Agora sou conselheiro da Frente Nacional de Le Pen, de Salvini, da AfD, de Orban e de Nigel Farage (membro do Parlamento do Reino Unido). Podemos bloquear tudo o que quisermos”.
Em 2018, durante a crise dos “coletes amarelos” em França, Bannon escreveu a Epstein: “a direita agora tem a classe trabalhadora do seu lado, com a imigração. Macron foi derrubado. Merkel está morta. Na próxima Primavera ganhamos 60% do Parlamento Europeu”.
Os bastidores da política são muito mais importantes do que as “bocas foleiras” que Trump passa para o mundo através da comunicação social credível e das redes sociais duvidosas, para entreter e distrair atenções, como acabou de fazer com a fotomontagem chamando macacos ao casal Barack Obama e Michelle Obama. Estas distracções de “enganar meninos” servem para tapar os olhos à opinião pública mundial para as verdadeiros maldades que Trump e os seus capangas fazem, não só nos EUA… mas também em todo o mundo.
Jornalista/Cartunista







