Entre escombros e memórias: as crianças do Talude – Por Rosa Fonseca

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Mesmo ali às portas da capital, em Loures, foram desalojadas várias famílias distribuídas por sessenta e quatro casas. Durante anos, aquele bairro foi mais do que um conjunto de casas; foi um lar, um espaço de convivência, de histórias e de memórias que se entrelaçaram ao longo do tempo.

O bairro do Talude foi construído por imigrantes vindos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, tão portugueses como nós e filhos da história que a todos pertence.

O que antes era lar, refúgio e esperança, virou poeira e memória. Apenas ecoa o silêncio das Sessenta e quatro famílias com as suas crianças, que de uma hora para a outra viram desfeitas as suas histórias. Estas barracas alojaram gente trabalhadora e afoita.

Enquanto se erguiam chapas de zinco, ninguém apontou alternativas, todos fecharam os olhos, assobiaram para o lado.

Afinal é pedir muito, um teto e abrigo para os nossos filhos!?

Em Loures, o chão estremeceu sob os seus pés não só pela força das máquinas, mas pelo impacto emocional de perderem o seu porto, o seu lar. Jazem agora sob os escombros, sonhos e esperanças vindas de outros mares.

As imagens não nos deixam indiferentes e trazem consequências profundas e dolorosas para as pessoas afetadas, especialmente para as crianças. Famílias inteiras ali enterram os sonhos, perdem os seus pertences e sua própria identidade. Se para os adultos é angustiante, doloroso e humilhante, para as crianças, será bastante traumático; põe em causa todo o seu percurso, causando ansiedade, medo e dificuldades de adaptação a novas condições de vida. Mas que vida?

“E as crianças, Senhor?”

Para as crianças que cresceram no bairro do Talude em Loures, aquele lugar era mais do que paredes e ruas; era um mundo de descobertas, brincadeiras e sonhos. Cada cantinho tinha uma história, cada rua era palco de risos e aventuras que ficariam guardadas para sempre na memória.

A criança é agora desalojada da sua própria história e infância com grave impacto emocional que se refletirá no seu crescimento e inclusão. Imagino esses seres, com olhos indefesos e corações confusos. Infelizmente é um cenário que nos vem de outros cantos do mundo e que por outras razões se encontram sob o mesmo relento. As crianças são forçadas a crescer antes do tempo e a mudar abruptamente o seu rumo. O relento para alguns é uma manta esburacada sobre o corpo cravado de inseguranças e incertezas.

Como se sobrevive a mais um terramoto social?

São urgentes políticas sociais que protejam os direitos das famílias e garantam um lar digno para todos, evitando que a vulnerabilidade se torne ainda maior.

Todos temos direito a viver com respeitabilidade. Afinal, uma comunidade forte é aquela que cuida de todos os seus membros, especialmente dos mais vulneráveis.

É urgente refletir sobre a fragilidade da nossa condição e a importância de políticas que priorizem a dignidade e o direito a habitação condigna. Não se trata apenas de demolir casas, mas de destruir sonhos, de apagar histórias de famílias que construíram as suas vidas com esforço e esperança.

Como fica a consciência coletiva depois deste abalo em Loures e tantos outros lugares sem teto?

Ninguém vive entre paredes de zinco por opção. Se não mudarmos o paradigma, as notícias de outras demolições abrirão de novo telejornais.

Meio século depois, “A paz, o pão, habitação saúde, educação” ainda é uma miragem para muitos…

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