Cultura : o “bicho papão” de governos inseguros – Por Alberto Jorge Santos

Mais artigos

Cada vez mais, com todas as dificuldades que coloquem no nosso caminho, editemos jornais, inventemos poesia, criemos todo o tipo de arte. Incentivemos atividades culturais. Temos poucas ajudas? É verdade. E as que existem são insuficientes. Agucemos, então, a característica tão portuguesa e genuína de improvisar. Juntemo-nos. Cooperemos. O importante é não deixar morrer a cultura nas suas diferentes dimensões. Utilizemo-la como escudo para o avanço do populismo, das mentiras nas redes sociais, da conspiração dos déspotas do século XXI. A demagogia e a manipulação só podem ser vencidas se o povo for culto. Ao invés, a liberdade não passa de mito.

António Lobo Antunes, um dos mais reconhecidos escritores portugueses, escrevia “A Cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.” Ora aí está! Haverá alguém que queira ser escravo?  Quererão os governos deste século criar novos escravos ou preferirão cidadãos? As dúvidas ficam, legitimamente, no ar…

O Governo português está longe de preferir uma sociedade opressora, presumo, mas decidiu atirar a Cultura para a “sala dos fundos”. Atrapalhou-se, ficou sem saber muito bem o que fazer com a Juventude, Desporto e Cultura – o capital fala sempre mais alto –tentou desfazer-se, afinal, do que dá pouco lucro. Vai daí, juntou esses três “trastes” e entregou-os a uma jovem ministra – Margarida Balseiro Lopes. Sem pôr em causa a sua competência, o que lhe entregaram foi um “presente envenenado”. Porque juventude/desporto/cultura têm muito pouco a ver entre si.

Os agentes culturais, associativos, que fazem das “tripas coração” para conseguirem manter projetos de inegável valor em prol da cidadania e, infelizmente, tão desconsiderados são, sabem que esta medida governamental é má. Vai dificultar, ainda mais, a criação de arte e o acesso à cultura. A quem serve esta mediocridade? Porventura aos mentores das fábricas de ódio e da desinformação. 

Estávamos irremediavelmente perdidos se um governo não zelasse com rigor dos dinheiros públicos e mitigasse o investimento na maior parte das infraestruturas, das propostas económicas e ações sociais. Isto não está em causa, obviamente. 

Mas não pode ser só isso. Há momentos e fatores em que dinheiro e lucro não podem ter o primeiro lugar no pódio das preferências. Se assim for, parte da sociedade anula-se, quebra-se, marginaliza-se na forma mais negativa que há – aceitando tudo o que lhe é imposto por pérfidos governantes ou candidatos a tal lugar. E “comem” o conteúdo das redes sociais, dos populismos, da imprensa mal-intencionada, sem um pestanejo, uma dúvida. As mentiras são engolidas com o mesmo prazer de um apetitoso pudim flan. E “aconselhado” aos seguidores e “amigos”. 

“O pensamento político está reduzido à economia, como se tudo pudesse ser calculado”, avançava Edgar Morin na sua Autobiografia.
E, claro, nem tudo pode ser calculado. As exceções são de crucial importância.

Ao colocar a Cultura na “gaveta”, o governo cometeu um erro grave. Consciente ou inconscientemente, continua a levar-nos para o caminho da ignorância, que já trilhamos há algumas décadas. Talvez conviesse mudar o rumo. A população, de cabeça aberta aos “salvadores da Pátria” – e já são vários! – correrá o risco de tornar-se hostil a todas as formas de liberdade, tolerância e democracia. Já esteve mais longe. Quererá, este governo, contribuir para situação tão melindrosa? 

Citando André Malraux, “A Cultura, sob todas as formas de arte, amor, pensamento, através de séculos, capacitou o homem a ser menos escravizado.”

Importava tirar a Cultura da “sala dos fundos”, da gaveta onde foi guardada e dar-lhe vida. Mais vida! Muita vida! O que só pode ser feito se o poder político a libertar. Mas, por medo ou conveniência, essa não é intenção. Lamentavelmente.

E com a vida cultural “torta”, o governa vai “manco”. E a sociedade continua doente.


image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img