Portugal foi eleito membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU. Uma notícia
histórica que nos coloca, durante dois anos, no centro das decisões sobre a paz e a segurança
mundial. Ou, traduzindo para português corrente, é como sermos convidados para um jantar de
gala e acabarmos sentados na ponta da mesa, ao lado da porta da cozinha, enquanto os verdadeiros
donos da festa discutem os assuntos importantes.
Dizem que agora temos um lugar à mesa onde se decidem questões de paz e segurança
internacional. Tecnicamente é verdade. Também quando somos convidados para um casamento
temos lugar à mesa. O problema é que ficamos tão longe dos noivos que acabamos a descobrir
quem eles são apenas quando aparece o bolo.
Temos também direito de voto. Isto soa impressionante até percebermos que existem cinco
membros permanentes com direito de veto. Ou seja, funciona mais ou menos como uma reunião
de condomínio onde vinte vizinhos votam uma coisa e depois aparece um único senhor a dizer
“não” porque sim. E pronto, acabou a democracia, cada um vai para sua casa.
Mas não sejamos negativos. Portugal terá a oportunidade de defender as suas prioridades
nacionais.
Aqui sim, abre-se um mundo de possibilidades. Há quinhentos anos resolvíamos estas questões de forma mais simples: aparecíamos de barco, plantávamos uma bandeira e dávamos um
nome novo ao sítio. Hoje a diplomacia é mais complexa. A menos que o Paulo Portas encontre
finalmente o ficheiro perdido dos submarinos e descubra que afinal a Marinha Portuguesa tem
uma esquadra secreta estacionada algures entre a Madeira e Marte.
Também nos dizem que esta eleição dará a Portugal maior visibilidade internacional. Não tenho
a certeza. A última vez que tivemos verdadeira visibilidade internacional foi quando alguém em
Nova York confundiu Lisboa com Espanha ou quando o Cristiano Ronaldo respirou. Talvez a
solução seja simples, substituir o escudo da bandeira pela cara do Cristiano. Em menos de uma
semana metade do planeta saberia apontar Portugal num mapa.
Outra vantagem é que participaremos nas grandes discussões globais. Finalmente poderemos
explicar ao mundo conceitos avançados da nossa política nacional, como fazer uma comissão para
estudar a necessidade de criar um grupo de trabalho que avalie a possibilidade de formar uma
comissão.
Infelizmente, o cargo não dá acesso automático a financiamentos nem a fundos especiais da ONU.
Uma verdadeira tragédia nacional. Porque, sejamos sinceros, se houvesse milhões para gerir,
Portugal já teria uma delegação de especialistas pronta a sacrificar-se pelo país e a assumir essa
pesada responsabilidade. E quando digo especialistas, refiro-me àquela rara espécie de gestores
públicos que conseguem fazer desaparecer dinheiro mais depressa do que a ONU consegue
aprovar uma resolução.
No entanto, não vale a pena sonhar. Sem fundos para distribuir, o interesse pela missão
diplomática deverá manter-se estritamente patriótico. “No fundo, a eleição para o Conselho de
Segurança é um enorme orgulho para Portugal. Vamos estar na sala onde se decidem os destinos
do mundo. É verdade que os cinco membros permanentes continuam a decidir quase tudo o que
interessa, mas nós estaremos lá, atentos, com o nosso crachá, a acenar educadamente e a esperar
pelo momento certo para falar.
Mais ou menos como em qualquer reunião de família portuguesa: estamos presentes, temos
opinião, que ninguém a pediu, e no fim decide a avó.

Shipchandler














