O Povo é sereno!

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Confesso que me deixa perplexo ouvir os discursos dos nossos governantes sobre o estado deste Portugal que habitamos. Mais perplexo ainda fico quando os responsáveis pela condução do país afirmam, com aparente convicção, que os portugueses vivem hoje melhor do que viviam ontem.

Se ontem muitos sobreviviam com dificuldade, custa acreditar que hoje prosperem. A realidade que se observa nas ruas, nos rostos cansados dos reformados e nas contas que não fecham ao fim do mês parece contar uma história diferente.
Vejo sucessivos governos preocupados em apresentar contas certas perante credores e instituições internacionais, mas menos empenhados em acertar contas com a dignidade de quem trabalhou uma vida inteira. Há milhares de pensionistas a viver com reformas insuficientes para enfrentar o custo crescente da habitação, da alimentação e dos medicamentos. E é legítimo perguntar: que vida é possível construir quando a sobrevivência ocupa todo o espaço da existência?
Entretanto, persistem privilégios que desafiam o senso comum. Alguns recebem benefícios vitalícios após poucos anos de serviço público, enquanto tantos outros dedicam décadas ao trabalho para, no final, receberem apenas o suficiente para adiar a pobreza.

Também o desperdício parece ter encontrado morada permanente entre nós. Projetos anunciados, estudos encomendados, planos sucessivamente revistos e milhões gastos sem que o país veja resultados proporcionais. O caso do novo aeroporto tornou-se quase uma metáfora nacional: décadas de discussões, montanhas de relatórios e uma interminável espera.

Portugal recebeu ao longo dos anos importantes apoios europeus. Contudo, permanece a sensação de que o desenvolvimento prometido nunca chegou por inteiro à vida de muitos cidadãos. Continuamos a assistir a salários modestos, pensões insuficientes e a uma carga fiscal que muitos consideram pesada para os rendimentos que auferem.
Por vezes, porém, a realidade parece contradizer este retrato. As estradas enchem-se de automóveis modernos, multiplicam-se moradias imponentes e os preços das casas atingem valores surpreendentes. À primeira vista, poderíamos concluir que habitamos um país próspero. Mas essa prosperidade revela-se frequentemente desigual, concentrada e incapaz de esconder as dificuldades de uma parte significativa da população.

E assim permanece a pergunta: até quando continuará Portugal a ocupar um lugar modesto numa Europa que avança a ritmo acelerado? Possuímos um clima invejável, paisagens magníficas e uma notável tranquilidade social. Possuímos, sobretudo, um povo paciente, resistente e sereno.
Talvez seja precisamente essa serenidade que tem evitado maiores convulsões. Mas um povo sereno não deve ser confundido com um povo resignado. A paciência dos portugueses é uma virtude; transformá-la num teste permanente à sua resistência é um erro que o país não se pode permitir.

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