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Sábado, Dezembro 6, 2025

Um silêncio intransmissível

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Às vezes fecho os olhos e escuto o murmúrio da esperança – essa presença oculta.

Muitos de nós já nos encontrámos com o silêncio dos corredores do IPO; é ali que se descobre uma forma de presença que vai além das palavras. Somos sozinhos a aprender e a escutar a vida – mesmo quando tudo parece suspenso.

Quando vou ao IPO o que mais me aflige é olhar o rosto de quem está só; uma radiografia interna ao silêncio de cada um de nós. Porque é ali que eu e tu nos confrontamos com o próprio silêncio.

Há silêncios que pesam mais do que a dor. Não é um silêncio absoluto; há sempre o som das máquinas, o arrastar de passos, o choro contido no quarto ao lado; o sussurro das enfermeiras, “vai correr bem”. E esse “vai correr bem” é o fio mais fino, mas também o mais forte, que ainda nos prende à vida.

É entre corredores e camas zeladas que apreendemos o próprio tempo em gestos pequenos: o chá quente que chega à hora certa, a visita de cinco minutos, a voz do lado entrecortada. Tudo se torna sagrado, mesmo o corriqueiro. E entre o medo e a fadiga, há uma ternura juvenil – por nós, pelos outros, por tudo o que ainda existe.

Estar sozinho no IPO é confrontar-se com o abrandamento do tempo e o ritmo lento das horas lá fora. As manhãs não têm pressa e as tardes não acabam nunca. Tudo se mede entre análises, esperas, pequenas vitórias, recaídas, e aquele breve instante em que o médico entra e diz: “Hoje está um pouco melhor.”

Há quem diga que a solidão é a pior doença. Mas aqui, dentro destas paredes brancas, a solidão é também uma forma de resistência. É no silêncio, intransmissível, que se escutam as orações mudas, os pedidos de quem não sabe mais a quem pedir. É no isolamento que se aprende a valorizar um olhar que sorri, uma mão que segura a nossa, mesmo por segundos.

É saber que do lado de fora, o mundo continua: os carros, as notícias, as pressas, as conversas… aqui dentro, o tempo é outro. Cada dia é uma pequena travessia – e, estar sozinho é, paradoxalmente, estar mais próximo de si mesmo. Há uma lucidez que nasce do medo, uma coragem que se acende na fragilidade.

É no IPO que a vida se mostra sem máscaras. Frágil, nua, mas persistente. Cada respiração é uma conquista. Cada amanhecer, uma espécie de milagre. E talvez seja isso: a solidão aqui não é afastamento, é uma outra forma de escuta.

Mas quando o sol entra pela janela do quarto, mesmo que fraco, há um instante em que tudo parece possível. E é nesse instante que se percebe: estar sozinho no IPO não é o mesmo que estar

abandonado. É apenas estar no princípio de um recomeço, onde o corpo, a esperança e o medo aprendem, juntos, a respirar devagar.

Às vezes fecho os olhos e escuto o murmúrio da esperança – essa presença oculta.

No fundo, acho que ninguém está verdadeiramente só. Há sempre alguém, mesmo em silêncio, a torcer do outro lado da porta, do outro lado da vida. E é esse invisível amor; discreto, persistente, que sustém os dias.

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