Foi em Março de 2020 que dei o primeiro passo no meu Caminho de Santiago.
Parti de Valença, rumo a Santiago de Compostela com um propósito simples, mas profundo: a fé. Como tantos outros peregrinos, levava comigo mais do que uma mochila — levava perguntas, intenções e uma vontade silenciosa de encontrar algo maior.
Quando cheguei à Praça do Obradoiro e entrei na imponente Catedral de Santiago, não senti o fim de uma jornada. Pelo contrário, tive a clara sensação de que algo estava apenas a começar.
Ajoelhado perante a imagem do apóstolo, fiz uma promessa: regressaria todos os anos. Caminharia por mim, por aqueles que amo e por todos os que fazem parte da minha vida.
E assim foi.

Em 2021, iniciei o Caminho Primitivo em Oviedo — um percurso exigente, duro, mas de uma beleza arrebatadora. Em 2022, segui pelo Caminho Sanabrês, desde Puebla de Sanabria até Finisterra, onde o mar parece fechar simbolicamente cada ciclo. Em 2023, regressei ao Primitivo, desta vez acompanhado por um colega de trabalho, o Leonardo. Mal nos conhecíamos, mas o Caminho tem esta capacidade rara: aproxima pessoas. Trouxe-me, nesse ano, um amigo para a vida.
Em 2024, o Caminho ganhou uma nova dimensão. Nasceu o projeto “caminhar_por”, e com ele juntaram-se mais dois colegas, Firmino e Armindo. O propósito deixou de ser apenas interior — passou também a ser solidário. Percorremos o Caminho das Geiras e dos Arrieiros apoiando o centro MamaHelp.
No ano seguinte, já com mais um elemento no grupo, o Hugo, decidimos dar visibilidade à “Operação Nariz Vermelho” enquanto realizávamos o Caminho Salvador. Curiosamente, foi um dos percursos mais curtos… mas talvez o mais intenso. A etapa mais bonita e, ao mesmo tempo, a mais dura de todas as que já vivi.

Agora, em 2026, preparamo-nos para mais uma partida. No dia 28, iniciaremos o Caminho Interior a partir de Parada de Aguiar — uma aldeia que me toca de forma especial, por fazer parte da história da minha família. Este ano, levamos connosco a missão de divulgar a Associação Maranathã, que acolhe crianças e jovens em Vila Nova de Gaia, oferecendo-lhes proteção, cuidado e um verdadeiro sentido de família.
Ao longo destes seis anos, já percorri mais de 1800 quilómetros. Mas a distância, por si só, pouco diz. Cada Caminho é diferente. Cada chegada ao Obradoiro traz um sentimento novo. O que começou como um ato de fé transformou-se numa necessidade espiritual — um tempo de silêncio, reflexão e autoconhecimento.
O Caminho ensinou-me muito. Deu-me amizades verdadeiras, momentos inesquecíveis, paisagens de cortar a respiração e desafios que me obrigaram a crescer. Ensinou-me que o essencial não está na pressa de chegar, mas na forma como se caminha.
Somos cinco agentes da Polícia Municipal de Gaia. Mas, acima de tudo, somos peregrinos. E, como todos os peregrinos, seguimos com o coração aberto ao que o Caminho nos quiser dar.

Resta-me agradecer. Aos que caminham comigo, aos que nos apoiam, e a todos os que, de uma forma ou de outra, fazem parte desta jornada.
Porque no fundo, o Caminho nunca termina. Apenas continua…dentro de nós.

El Português Errante







