«O Douro fotografado de todos os ângulos. Mas não há diafragma por onde possa entrar esta grandeza. De resto, mesmo que entrasse, de que valia? Todas as imagens colhidas pela objectiva não seriam nada comparadas com as que trago na retina. É que, para mim, Trás-os-Montes não é uma paisagem: é uma fisiologia.»
Miguel Torga, Diário XII
Pois bem, o que cabe no diafragma do nosso olhar? O que fica na retina?
Não importa a dimensão do lugar, a face visível do que nos rodeia. O certo é que o invisível também nos habita durante e depois da viagem. No regresso, tentamos reconstruir na retina diafragma a moldura da nossa experiência nómada e, malgrado todos os esforços, a invisibilidade é também um território a mapear – com os sentidos, assente nas sensações. Com as emoções, fundeadas nos instantes inefáveis e fugazes, que apetece agarrar para eternizar.
Em Sebolido, existe a possibilidade de um “diafragma” único e inesquecível – Vila Cancelos. Um lugar sobre o Douro, espraiado em socalcos que caracterizam esta paisagem. Acede-se ao espaço depois de uma estrada descendente que impõe um ritmo muito próprio à descida, antecipando o que espera o visitante. Em Vila Cancelos, não são só as duas casas para os hóspedes que parecem suspensas sobre as águas do rio, o tempo também para e abraça-nos a promessa de uma pausa retemperadora e, sobretudo, de encantamento.

E motivos para esse encantamento, essa espécie de feitiço, existem de sobra, ali – as duas casinhas em pedra da região, cujos caminhos empedrados são ladeados de canteiros coloridos, a piscina de água translúcida e salgada com uma vista rio a cada braçada que se dá, as cores das borboletas que esvoaçam sobre as pétalas e os arbustos baixos que emolduram o espaço.
Não falta também um gato cinzento que gosta de visitar a vila e seduzir os hóspedes com o seu olhar e o seu ronronar. Este gato de presença discreta é também um convite ao ambiente familiar que envolve todo o alojamento, até porque há uma terceira casa, a dos proprietários Carla e Abel, que completa o quadro. Quadro em que cada traço foi sonhado e pensado ao pormenor e com extremo bom gosto. Ambos queriam refletir nas suas escolhas para o alojamento o amor que têm pelo lugar e pelo rio. Na esperança de contagiarem os hóspedes. E tornaram os sonhos realidade. Esse contágio acontece de forma natural.
O interior das casinhas foi pensado com atenção aos detalhes. O conforto alia-se às linhas modernas que se harmonizam com o exterior tradicional. Cada uma delas convida à reclusão e ao espreitar pela janela o lá fora. Ou então permanecer no meio termo, que o mesmo é dizer sentarmo-nos nas cadeiras à volta de uma mesinha numa espécie de balcão com vista para a paisagem líquida e verde que se oferece ao olhar. E assim ficamos com vista casa e vista rio. Estamos entre e sentimo-nos parte do espaço, do quadro, dentro do diafragma da beleza.
Em Vila Cancelos tudo convida ao deslumbramento e ao tempo vivido placidamente. Tendo o rio, a montanha conquistada ao longo dos tempos e toda uma flora generosa ao dispor do olhar do visitante. O trabalho de fixar o efémero foi-lhe facilitado e quem chega só terá de se entregar, sem reservas, ao discorrer das horas. Presenciar, nos vários pontos de observação, as cores do rio ao longo do dia, as matizes do céu que jogam com as da água fluvial e da piscina, é uma experiência que vale muito a pena registar na retina, qual pintor atento e apaixonado pelo quadro da natureza.

Ver este recanto do mundo e vivê-lo para depois o habitarmos em memória. Em belas recordações. A morada de destino passa a integrar o nosso mapa interior, cujas coordenadas nunca estão definidas – alargam-se, aprofundam-se, reformulam-se.
Há toda uma geografia pessoal, particular, que se enlaça com os mapas que conhecemos e que traduzem o território visível.
Vila Cancelos não fica em Trás-os-Montes, mas constitui uma belíssima antecâmara para o Reino Maravilhoso, como lhe chamou o poeta que escolhi para iniciar este texto. Adentramo-nos neste reino por uma porta que anuncia o que se vai prolongar – serenidade verde, rio caudaloso que preenche o olhar com a sua força e ímpeto discretos, os socalcos desenhados com pincéis que alternam entre a flora e a marca humana com as casas de pedra e debruçadas sobre o Douro. A beleza encantatória destas paragens, que tão bem descreve o poeta.
«O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.»
Miguel Torga, Diário XII
Blog da autora: https://cartografiapessoal.wordpress.com
Professora. Apaixonada por poesia, livros e viagens. Autora do blogue Cartografia Pessoal.








