As repórteres do serviço local informativo – entenda-se as alcoviteiras do bairro – fizeram espalhar a notícia do infortúnio do senhor Alves. Figura típica, já de idade avançada, que sofreu um ataque cardíaco fulminante.
O pobre e envelhecido coração, apesar dos tremeliques, aguentou o impacto: o corpo sofreu apenas algumas mazelas ao nível da locomoção e da fala. Na minha memória, conservo a imagem da enorme vitalidade deste indivíduo que agora se arrasta, esquecido e abandonado, numa casa demasiado grande. Os vizinhos comentam a crueldade dos familiares mais chegados que nunca apareceram. Talvez um extracto bancário recheado conseguisse reacender os laços familiares perdidos. Senti que algo tinha de ser feito por este amigo de longa data e considerando a minha agenda ocupada – que envolve ressonar alto como um tractor – arranjei tempo para retirar o velhote de casa. A falha do coração causou-lhe uma pequena paralisia na perna esquerda e, para além de mancar, é compreensível que demore mais tempo a chegar ao destino…
Porém, com bastante calma temos conseguido cumprir os objectivos! Depois de definir prioridades e estipular um plano de acção, num gesto de bom samaritano, levei-o à Repartição de Finanças. Mesmo com um longa fila – com caras nada amistosas e muito impacientes – fomos atendidos de imediato e, graças à lei da prioridade, consegui resolver o meu problema. Ontem, aconteceu o mesmo no Centro de Saúde: por entre um aglomerado de pessoas com nariz entupido e aspecto febril, nem tivemos de esperar! Na próxima semana tenho coisas a tratar nos Correios e já está tudo combinado para não ir sozinho! E ainda me acusam de ser oportunista por me fazer acompanhar por um idoso só para ter prioridade!
Por vezes penso como seria se, neste país, houvesse menos intolerância e preconceito.
Maquinista na Metro do Porto







