Ontem à noite, o Coliseu encheu para celebrar a maior mobilização da cidade em defesa da sua sala icónica. 30 anos depois pretendeu-se recriar o espetáculo que no “Verão quente” de 1995 simbolizou uma das mais notáveis mobilizações cívicas da história recente do Porto.
O movimento “O Coliseu é nosso” nasceu da oposição popular à tentativa de venda do Coliseu do Porto à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e acabou por transformar-se num símbolo duradouro da defesa do património e da identidade cultural da cidade.

Muito antes de se tornar palco de lutas cívicas, o Coliseu do Porto ergueu-se em 1941 sobre o antigo Salão Jardim Passos Manuel, inaugurado em 1908 como Salão de Cynematographo, espaço que se afirmou imediatamente como um sucesso, o que levou o seu proprietário, o empresário de teatro Luíz Alberto Faria de Guimarães, a realizar uma profunda remodelação e ampliação. Com o passar das décadas, o salão tornou-se insuficiente para as ambições culturais da cidade. Em 1938, o Salão Jardim Passos Manuel foi desativado, abrindo caminho à construção do edifício do Coliseu.
Propriedade da Companhia de Seguros Garantia, o Coliseu do Porto abriu as portas a 19 de dezembro de 1941, com um Sarau de Gala, e logo a programação revelou uma vocação eclética, com ópera, ballet e variedades, um traço que permanece até aos nossos dias no seu ADN.
Entre as décadas de 1940 e 1960, o palco do Coliseu recebeu grandes nomes nacionais e internacionais como Beatriz Costa, Hermínia Silva, o mimo Marcel Marceau e o bailarino Rudolf Nureyev. Montagens de ópera como La Bohème e Rigoletto, apresentadas pela Orquestra Sinfónica Nacional e pelo Corpo Coral do Teatro Nacional de São Carlos, partilhavam a agenda com projeções de êxitos como West Side Story e Música no Coração. Também o Festival da Canção Portuguesa encontrou aqui uma das suas casas mais emblemáticas.

Em 1991, o Coliseu do Porto celebrou o seu cinquentenário com um concerto especial de homenagem ao espetáculo inaugural de 1941. Intitulado “Concerto Inaugural”, o evento recriou o primeiro momento musical da história da sala, com a Orquestra do Porto Régie-Sinfonia sob a direção do maestro Jan Lathan-Koenig. Ao piano, Helena Moreira de Sá e Costa, acompanhada pelo seu discípulo Pedro Burmester, interpretou obras de Johann Sebastian Bach, evocando a tradição clássica que marcou o nascimento do Coliseu.
E a história do Coliseu poderia ter ficado por aí, quando em março de 1995 surgiu a notícia da sua venda à IURD. O jornalista Valdemar Cruz, que também ontem lançou o seu livro “O Coliseu é nosso” conta como nesse Agosto “o telefone fixo da casa do ator Júlio Cardoso tocou incessantemente numa chamada de Avelino Tavares a anunciar sobressaltado que o Coliseu tinha sido vendido à IURD e que era necessário fazer alguma coisa.” Sucederam-se vários telefonemas em várias casas, as rádios e os jornais do Porto divulgaram amplamente a situação e despoletaram o espírito combativo dos portuenses.

Nas palavras de Miguel Guedes, presidente da Associação Amigos do Coliseu do Porto “Há 30 anos, A mobilização de cidadania, única e talvez irrepetível, foi peça fundamental para a inversão de um destino que parecia traçado, obrigando todos a assumirem a sua responsabilidade.”
Miguel Guedes, que recebeu esta noite das mãos da Ministra da Cultura e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, a Medalha de Mérito Cultural atribuída à Associação Amigos do Coliseu do Porto, reforçou o papel essencial das gentes do Porto quando agradeceu ao povo, à cidade. Colocando a questão de modo inverso:”O que teríamos perdido se o Coliseu tivesse terminado há 30 anos? Comos seríamos e o que seria desta cidade sem o Coliseu? O poder das pessoas, dos portuenses que não vergam continua a ser essencial, pois, nada é garantido.” Um apelo à vigilância constante, que os artistas que uma vez mais se uniram para recriar uma noite histórica e memorável não se cansaram de afirmar.
Neste espetáculo feito de memórias, de referências e de grandes nomes evoca-se a identidade cultural da invicta. Uma referência que começou com as vozes masculinas do Orfeão Universitário do Porto que fizeram vibrar uma plateia que elevou a voz desde o início dos primeiros acordes de “Porto sentido” de Rui Veloso, reforçando desde a primeira estrofe “Quem vem e atravessa o rio…” — o símbolo maior do amor e da identidade do Porto.

António Pinho Vargas, a solo no piano representou essa figura tutelar da história da música no Porto, de quem foi aluno, a pianista Helena Sá e Costa (1913-2006), a quem coube abrir o concerto de 7 de Setembro de 1995, ela que tinha também tocado no serão inaugural do Coliseu do Porto a 19 de Dezembro de 1941. A serenidade do piano possibilitou recriar memórias de sempre que ecoam nestas paredes e eternizam a excelência musical portuense.
O Coliseu voltou a vibrar e levantou-se, cantando em uníssono com Rui Reininho “é a pronúncia do Norte” mostrando a sua atitude orgulhosa e frontal com sotaque e identidade. Os GNR galvanizaram o Coliseu, atualizando na canção a voz e o carácter do Porto.
Voz com personalidade e lutas próprias, com humor peculiar, acentuados nas palavras e no humor de Óscar Branco. No Porto, o humor nunca é leve — é sério na sua ironia. Surge como arma e escudo, capaz de desmontar o poder com graça e de unir as pessoas em volta de uma causa. Durante a luta pelo Coliseu, esse humor foi um modo de afirmar a autonomia e o orgulho da cidade, sem precisar de grandes discursos.
Palavras igualmente emotivas surgiram na declamação de José Carlos Tinoco, evocando poeta portuense Paulo Arunhosa, e nas apresentações simples e envolventes de Júlio Magalhães, que reforçavam o vínculo entre cultura, memória e identidade portuense.

A expressão cultural, autêntica e provocatória da cidade é também sinalizada com o regresso de “Amarguinhas” — numa explosão de alegria e cor que atesta o lugar simbólico das vozes críticas e irreverentes do Porto.
Desde o nome sugestivo e provocatório “Amarguinhas” ao seu êxito “Just Girls”, passando por fãs ousados que encarnam a alma local, o grupo celebra uma cultura que ri de si própria, desafia convenções e transforma o humor em forma de intervenção. As enigmáticas “Amarguinhas” puseram o Coliseu a dançar — e, com a música sempre a subir, ninguém ficou indiferente. Até alguns fãs, vestidos e com perucas a preceito, fizeram da noite uma festa tão teatral quanto popular — uma celebração viva da identidade portuense.
Outra banda, que teve presença ativa no movimento cívico foram os BAN. Com uma atuação energética e emotiva, os BAN recuperaram temas emblemáticos do seu repertório, recordando a época em que a música portuguesa se juntou em protesto e solidariedade. O público respondeu com entusiasmo, reforçando o sentimento de pertença e identidade que o Coliseu representa para a cidade.
Um dos mais antigos filhos da cidade, ainda cheio de energia, entrou em palco — desta vez sem as bolas nem o malabarismo, mas com vibrantes aplausos que fizeram as paredes tremer ao som de “Soube-me a pouco, soube-me a pouco…”.
Sérgio Godinho, o cantor portuense tantas vezes celebrado, regressou uma vez mais à luta, com a mesma lucidez e generosidade de sempre, para lembrar que a cultura é também uma forma de resistência — e, acima de tudo, de amor à cidade.
Bem vivas nas memórias de muitos dos presentes estão ainda as imagens de Pedro Abrunhosa algemado às portas do Coliseu — gesto icónico que, em 1995, levou milhares de pessoas a não arredarem pé da Rua Passos Manuel.
Esta noite, já não se gritou “O Coliseu é nosso, carago!”, mas o espírito era o mesmo: o de quem resiste.
O Coliseu iluminou-se com as luzes dos telemóveis e, em uníssono, cantou-se “Socorro, estou apaixonado” — com a mesma paixão de quem sabe resistir na sua cidadania e a certeza que amar a cidade é dos mais nobres atos de cidadania.
Esta noite, viveu-se no Coliseu um remake emocional que reavivou a memória coletiva e celebrou a preservação do Coliseu como valor simbólico e estratégico — expressão maior do poder da cidadania organizada.
A celebração recordou a importância do património cultural na construção da identidade urbana e a capacidade de uma comunidade se mobilizar por aquilo que considera seu.
Como o próprio Pedro Abrunhosa salientou, “As salas de espetáculo precisam de permanecer no coração das cidades…” — e o Porto mostrou, mais uma vez, que sabe lutar por esse coração.
No Porto, a cultura não é apenas espetáculo — é pulsação, memória e resistência. E, enquanto o Coliseu tiver luz, o coração da cidade continuará a bater.
Como lembrou Sérgio Godinho: “Viva o Coliseu. É nosso.”
Fotos: ANTÓNIO PROENÇA | OCIDADÃO
Colaboradora/Filósofa







