Caetano Veloso alimenta a alma do Porto num concerto imortal

A eterna juventude de Caetano Veloso desafia o tempo. A caminho dos 84 anos, o "senhor da música" transformou o antigo Pavilhão Rosa Mota/Super Bock Arena num templo de emoção pura

Mais artigos

A caminho dos 84 anos, o “senhor da música” transformou o antigo Pavilhão da Rosa Mota num templo de emoção pura. Perante uma arena completamente esgotada e rendida, o mestre baiano desfilou hinos geracionais, provando que a sua voz e a sua poesia permanecem intactas, urgentes e profundamente divinas.

Há concertos que se inscrevem na memória coletiva de uma cidade não pelo aparato cénico ou pelo artifício técnico, mas pela densidade da presença humana que habita o palco. O que se viveu ontem à noite na Super Bock Arena, no Porto, transcendeu a mera celebração retrospetiva. Caetano Veloso, figura cimeira da Música Popular Brasileira que celebrará 84 anos de vida no próximo mês de Agosto, assinou uma atuação arrebatadora, marcada por um rigor interpretativo irrepreensível e por uma envolvência emocional que deixou o público em absoluto estado de graça.

O espetáculo, integrado na sua mais recente passagem por Portugal, arrancou sob uma ovação ensurdecedora, com a plateia tripeira a erguer-se mal a silhueta elegante do músico surgiu sob os refletores. Sem necessidade de grandes preâmbulos, Caetano inaugurou a noite com a subtileza de “Branquinha”, seguida pela cadência íntima de “Gente”. Rapidamente se percebeu que a noite seria uma viagem vertical pela espinha dorsal da cultura lusófona, guiada por uma voz que, desafiando as leis da biologia, mantém a doçura, a afinação cirúrgica e o timbre aveludado que o celebrizaram.


O peso da história e a força da palavra
O alinhamento, meticulosamente estruturado, alternou momentos de recolhimento poético com explosões de manifesto estético e político. A densidade de “Vaca Profana” e a icónica “Divino Maravilhoso” ecoaram como preces intemporais, lembrando a herança do Tropicalismo e a coragem de uma geração que moldou o pensamento artístico transatlântico. Em “Cajuína”, o silêncio na arena fez-se quase palpável, quebrado apenas pela comoção contida de milhares de espectadores.
A presença de Caetano Veloso em palco é uma lição de dignidade artística. Aos quase 84 anos, o rigor com que aborda cada nota e o respeito sagrado que demonstra pela palavra escrita e cantada convertem o palco num espaço de comunhão rara.

A vertente mais contemporânea e experimental da sua vasta discografia manifestou-se com a pujança de “Podres Poderes” e a acutilância digital de “Anjos Tronchos”, uma reflexão afiada sobre os tempos modernos que demonstra que a mente de Caetano continua tão jovem, inquieta e sintonizada com o futuro quanto em 1968. Seguiu-se o arrebatamento coletivo com “Sozinho”, entoada em uníssono por um coro monumental que uniu gerações distintas nas bancadas da Super Bock Arena.

Ritmo, tradição e o arrebatamento final
A reta final do espetáculo foi uma demonstração de vitalidade rítmica e celebração pura. Com temas como “Muito Romântico”, a mítica “Alegria Alegria” e o balanço contagiante de “Não Enche”, o concerto caminhou para um clímax inevitável. A cadência de “Um Índio” e a crueza urbana de “Fora da Ordem” prepararam o terreno para as obras-primas da bossa e do samba: “Desde que o Samba é Samba” e a hipnótica “Reconvexo” fizeram a arena vibrar, culminando na euforia festiva de “É Hoje”.

Perante a insistência inequívoca de um Porto que se recusava a deixar partir o mestre, o obrigatório BIS trouxe à tona a imensidão geográfica e afetiva do cancioneiro do artista. As interpretações magistrais de “Sampa” — uma sentida homenagem à densidade paulistana — e a frescura solar de “Menino do Rio” funcionaram como o preâmbulo perfeito para o desfecho absoluto.

O encerramento definitivo deu-se com “Odara”, deixando no ar o lema que resume não apenas a noite de ontem, mas toda a existência deste gigante da música: a urgência de deixar que o mundo dance, cante e permaneça alegre. Um concerto para a eternidade.

Alinhamento Oficial do Concerto (Super Bock Arena, 27.05.2026):
1. Branquinha
2. Gente
3. Vaca Profana
4. Divino Maravilhoso
5. Cajuína
6. Podres Poderes
7. Anjos Tronchos
8. Eclipse Oculto
9. Sozinho
10. Um Baiana
11. Muito Romântico
12. Alegria Alegria
13. Não Enche
14. Queixa
15. Um Índio
16. Fora da Ordem
17. Desde que o Samba é Samba
18. Reconvexo
19. É Hoje
• BIS:
o (Sampa)
o (Menino do Rio)
20. Odara

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -Advertisement

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img