Retratos de solidão entre a cidade – Por Rosa Fonseca

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A Gabriela, atriz de teatro amador, gostava de olhar a velha moldura de onde sobressaiam sorrisos que a embalavam no velho cadeirão: uma foto de há quarenta anos, quando a família ainda cabia na casa pequena.

Hoje, com a idade a pesar-lhe nos ombros, Gabriela não pode ir ver o neto ao fim de semana, nem visitar as ruas da infância. O trabalho, as despesas e a distância, empurraram a vida familiar para um tempo escasso de convivência. Apesar disso, todas as manhãs, antes do sol nascer, ela acende a vela de uma memória: o jantar em que toda a gente se ria, os natais reluzentes, os domingos no alpendre; mas é a voz da avó que recorda quando lhe contava histórias que ainda hoje lhe embalam o sono. Gabriela, no seu sorriso contagiante, diz-nos que as memórias que a habitam são os abraços que agora lhe faltam, mas entende este novo palco.

O senhor João, reformado, faz do jardim perto de casa a sua sala de estar. Hoje recebeu a visita da neta, com o mesmo sorriso curto com que ultimamente recebe os dias. Há uns tempos que não a via. Ela trouxe um termo de chá que ainda não ficou frio e, com ela, veio a pergunta que não cala: “Avô, ainda fazes as tuas caminhadas?” João estalava os dedos nervosamente no colo e respondeu que sempre que as pernas o permitem, que o inverno não perdoa quem adoece sozinho. A neta sorriu e, juntinhos, partilharam pequenas histórias do dia a dia e por momentos, a pressa do quotidiano transformou-se num espaço de afeto: uma presença partilhada.
João, no seu sorriso curto, diz-nos que a falta de um abraço regela os ossos.

Olinda tem mais de oitenta anos e vagueia diariamente o olhar pelos vizinhos que, apressadamente saem e entram em casa. Raramente veem a sua solidão à janela. Vive com a saudade dos filhos emigrados e afaga as memórias para os sentir no colo. O tempo teima em arquear-lhe as costas e a toldar-lhe o futuro. Ela, já só espera os escassos telefonemas dos filhos, que trazem abraços de calendário.
Olinda, no seu olhar devoluto, diz-nos que a azáfama da cidade engoliu de um trago, o sol que já tivera no olhar.

Os nossos idosos precisam do nosso olhar; laços e afetos não são apenas memórias ou encontros ocasionais. São redes invisíveis que sustentam quem é esquecido pela agenda pública, os que não cabem nos relatórios de contas, os que carregam no corpo o peso de uma vida que ainda quer ser vivida com dignidade. É preciso dedicar-lhes tempo e dizer-lhes “és importante para mim”, mesmo quando a vida nos pede pressa. É dar-lhes a certeza de que não está sozinho, que os seus silêncios são ouvidos.
Apesar das exigências em que vivemos podemos sempre oferecer a nossa presença.

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