La Filosofía de Madrid

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Entro no avião com aquela imagem da Torre Eiffel como peça no tabuleiro de Paris, farolando o horizonte infinito – aquele tricotado de campos ao redor da cidade. Um pôr do sol, um levantar voo de volta à minha primeira viagem em trabalho. Tão pouco tempo depois, a caminho de Madrid por ocasião do lançamento da minha poesia traduzida na Revista Peatones. Eu descolando meu trabalho na Faculdad de Filosofía da Universidade Complutense. Eu querendo abraçar a sua equipa editorial. Querendo conhecê-los e agradecer – dois verbos recorrentes nos últimos meses. Tudo em questão de meses.

Tudo em busca do transporte para o centro, para a Estação de Atocha, para o Museo Reina Sofía, tudo pela Guernica e aquele entusiasmo de falar a língua de nossos irmãos. Eram vinte horas e já me sentia em casa, diante do Prado, na Gran Vía dos teatros, dos restaurantes, do cheiro a presunto, numa ausência de lixo na rua, rodeado de muita polícia e daqueles semáforos que não dão uma abébia aos que entram na passadeira um segundo antes das buzinas, da correria, da vida comum às capitais europeias. Eu, sozinho, com uma mochila às costas e um mapa na mão, em busca da Plaza Mayor, de um supermercado, da janta e do sono.

Madrid ganhou-me pela noite. Por isso, deitei-me tarde e acordei cedo. Acordei por mim, de madrugada, eram quatro e pouco e já tinha o banho tomado, a mochila feita, a cama feita, as botas nos pés, o guarda-chuva à mão. Tendia para o dilúvio. Recordava Paris. Teria agora ponto de comparação. De Madrid, até então, só havia explorado o aeroporto e a M30. Não seria coisa idêntica, calcorrear a cidade con mis proprios pies.

Zero graus, algum vento, a dois passos do Monumento a Cervantes, a calle de la princesa que dá para os grandes edifícios do Ejército del Aire y del Espacio, seus aviões caça e a lua sobre o Arco de Moncloa, du Triumph? Volta a imagem de Paris, as caminhadas habituais, 6km de casa à faculdade. Entusiasmo na semelhança com os edifícios de minha própria Universidade, a de Aveiro. Estava na ordem do dia encontrar Carlos “Lorenzo” e ver nosso trabalho.

Reconhecer-me-ia com surpresa. Sim, tinha viajado. Estava ali em carnes e osso. Em pé. Talvez com ar cansado, mas de sorriso pronto. A receção seria calorosa. A conversa idem. Estava também Elena. Falámos muito. Apresentaram-me a outros autores – Sérgio e André. Trocámos o contacto, comprei o número de revistas necessário a servir todos os meus amigos, despedi-me e zarpei, a fim de sondar as instalações, as salas de aula, os cafés e a biblioteca. Havia estado presente. Aberto portas. Feito pontes. Será essa a missão de um escritor?

Na volta, 8km pelas casas de arte e antiguidades, pelo Palácio Real, pela calle mayor, de agradável aspeto, pelas confeitarias com montras de pan de mallorca e tortas de santiago e flores de carnaval e churros, churros e churros em íman também a Plaza de Cibeles, do outro lado do vidro, meu regresso, meu cabelo encanecido refletindo para trás de mim o grande cemitério nos arrabaldes da metrópole, entre o aeroporto e o que acabara de ler: “Cada existência pessoal assenta num segredo”¹.

¹ Citação do conto “A senhora do cãozinho” de Tchékhov, 1887.

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