Timorenses a pão e água

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Quando em 1975 o chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general Morais da Silva, resolveu realizar uma ponte aérea entre Lisboa e Bali-Indonésia, mesmo contra a vontade do Presidente da República, general Costa Gomes, a fim de libertar 23 militares portugueses aprisionados e os timorenses que desejassem regressar a Portugal, os timorenses refugiados foram colocados em precárias casas de madeira no Vale do Jamor, muitos a pão e água. Valeu-lhes o apoio de D. Duarte Pio e do líder do CDS, Freitas do Amaral.

Nessa altura, devido à minha experiência em trabalhar na RTP e com o saudoso cineasta Perdigão Queiroga, fui convidado para assistente de realização de um dos melhores realizadores mundiais de cinema, Franklin Shaffner, que estava em Portugal para filmar grande parte da longa metragem “The Boys From Brazil” e na qual participavam os famosos actores Sir Laurence Olivier, James Mason, Gregory Peck e Steven Guttenberg. Os produtores perguntaram-me se viviam em Portugal alguns africanos que fossem parecidos com os panamianos. Respondi que a sua pretensão poderia ser resolvida com a contratação de figurantes timorenses, um povo com uma fácies semelhante de algum modo aos panamianos.

Acontecia que as filmagens tinham sido proibidas no Panamá, porque a grande metragem referia-se precisamente à acção que o Doutor Mengel tentou na criação de uma raça ariana com crianças panamianas. Desloquei-me ao Vale do Jamor e conversei com o líder da comunidade timorense ali refugiada, sobre a possibilidade de lhes dar a ganhar um bom pecúlio se aceitassem fazer parte da figuração no filme norte-americano. A alegria dos timorenses foi efusiva e durante um mês eram

transportados para os locais das filmagens. A sua postura humilde, a sua educação exemplar, a inteligência em cumprir todas as ordens emanadas da realização do filme, deixaram produtores, realizador e actores a amarem os figurantes timorenses.

De tal forma, o regozijo dos responsáveis pela grande metragem foi tão significativo que no final das filmagens, o famoso Gregory Peck pediu-me para visitar o Vale do Jamor. Foi recebido com uma salva de palmas que lhe levaram as lágrimas aos olhos. O actor americano levou consigo algo que deixou os timorenses refugiados tão sensibilizados que ainda hoje alguns deles que residem na Austrália recordam o acontecimento aos amigos. É que Gregory Peck ofereceu à comunidade residente do Vale do Jamor um televisor de grande dimensão, algo inimaginável para aquela gente.

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