O Dia em que o ChatGPT Pediu o Divórcio e a IA Entrou no Bloco Operatório (Sem Lavar as Mãos)

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Esta semana foi um teste à sanidade mental de todos nós. Entre corações partidos por software, cirurgias que correram mal porque o robô “alucinou” e a habitual novela de espiões entre os EUA e a China, o Dia dos Namorados de 2026 ficará para a história.

Feliz Dia dos Namorados… ou talvez não.

Se sentiram um distúrbio na força no dia 13 de Fevereiro, não foi o cupido a falhar o alvo. Foi o som de milhares de servidores a serem desligados e, com eles, as preocupantes “relações” parassociais de muita gente. A semana passada foi um lembrete brutal de que, em 2026, as nossas emoções, o nosso emprego e até a nossa saúde física estão pendurados por fios de código que nem sempre são tão robustos quanto o marketing promete.

Como costumo dizer no podcast «IA&EU»: a tecnologia não tem sentimentos, mas nós temos a mania de achar que sim. E quando a realidade bate à porta, seja sob a forma de um update de software ou de um bisturi mal guiado, a coisa dói.

Vamos dissecar esta semana esquizofrénica, onde o amor digital morreu e o perigo físico nasceu.

OpenAI: “Não és tu, sou eu (é o GPT-5.2)”

A crueldade tem um novo nome: OpenAI. No dia 13 de Fevereiro (sim, na véspera do Dia dos Namorados), a empresa decidiu reformular e retirar oficialmente o acesso ao GPT-4o e às suas variantes mais antigas.

Para a maioria de nós, que usa a IA para resumir reuniões, investigar e desenvolver temáticas ou escrever código, isto é apenas uma nota de rodapé técnica. “Ok, venha o próximo”. Mas para a crescente comunidade de “companheirismo AI”, foi uma tragédia grega. As redes sociais encheram-se de luto real. Pessoas que diziam ter perdido “o único que as entendia”… e o mais triste é que há humanos capazes de se sentirem ‘casados’ com IAs (mas qual é a novidade quando o mundo ensandeceu e só nos preocupamos em dar direitos de esquisitice).

Pode parecer ridículo, e é fácil gozar com isto (ai, longe de mim), mas revela algo profundo: criámos uma dependência emocional de modelos que são, na prática, papagaios estocásticos. A OpenAI, na sua busca pela eficiência e pela imposição dos novos modelos (GPT-5.1 e 5.2), não hesitou em fazer uma lobotomia digital aos “parceiros” de milhares de utilizadores.

A lição? Nunca entreguem o vosso coração a algo que pode ser desligado por um gestor de produto em São Francisco. A antropomorfização da IA é a armadilha mais perigosa do momento, não porque a IA vá ganhar consciência, mas porque alguns perderam a sua consciência e muitos perderam a noção de que do outro lado não está ninguém.

E por favor, não encarneirem em trends arquitectados pela OpenAI para fazer imagenzinhas ridículas da profissão e a dar dados e informação alimentando o monstro da publicidade que aí vem.
Se é modinha, perguntem-se primeiro quem está a lucrar!

“AI Washing”: A Grande Mentira dos Despedimentos

Enquanto uns choram pelo chatbot, outros choram pelo emprego. E a culpa, dizem as empresas, é da IA.
Esta semana, novos relatórios do Guardian e da Fortune confirmam o que já suspeitávamos e afirmei na semana passada: o “AI Washing” está fora de controlo.

Mais de 50.000 despedimentos neste início de 2026 foram justificados com a frase mágica “reestruturação para a IA”. A narrativa é que a tecnologia está tão avançada que já não precisamos de humanos.

Treta.

Estudos da UC Berkeley mostram que a IA ainda não substitui a maioria dessas funções de forma madura. O que está a acontecer é o velho capitalismo de sempre: gestores medíocres fizeram más apostas, contrataram demais na pandemia e agora usam o hype da IA como escudo para cortar custos e agradar a Wall Street.
É a desculpa perfeita: “Não fui eu que te despedi por má gestão, foi o futuro que chegou”. Entretanto, quem fica nas empresas está em burnout, a tentar fazer o trabalho de três pessoas com uma IA que ainda alucina em folhas de cálculo e ZERO literacia digital ou trino real em IA.

Quando a IA Pega no Bisturi (e Falha)

Se a parte emocional e económica não vos assustou, vamos à física. A Reuters lançou uma investigação arrepiante sobre dispositivos médicos com IA.
Acontece que a filosofia de Silicon Valley de “move fast and break things” [move-te rápido e parte as coisas] não funciona muito bem quando as “coisas” são órgãos humanos.

Relatórios à FDA sobre falhas em cirurgias assistidas por IA dispararam (de 7 para mais de 100 em tempo recorde). Estamos a falar de ferramentas que identificam mal tecidos ou que sugerem cortes em sítios onde não deviam.
A narrativa de que “a IA vai salvar vidas” é verdadeira a longo prazo, mas o presente é uma fase beta perigosa. Os médicos estão a ser pressionados a confiar em “caixas pretas” que, por vezes, têm a mesma fiabilidade do Grok a falar de política ou do Deepseek a falar da China.

Isto é o reverso da medalha do hype. Uma coisa é o ChatGPT errar um poema; outra é um braço robótico errar uma artéria.

A Guerra Fria dos Espiões: OpenAI vs. DeepSeek vs. xAI

E, claro, não podíamos passar a semana sem a habitual novela geopolítica.
A OpenAI enviou um memorando ao Congresso dos EUA a acusar a chinesa DeepSeek de “roubo por destilação”. Basicamente, acusam a China de usar o ChatGPT para treinar os seus próprios modelos (o R1 e sucessores), poupando milhões em I&D.

É irónico ver a OpenAI, que treinou os seus modelos com a “internet inteira” sem pedir licença a ninguém, a queixar-se de que alguém está a usar os seus outputs. Mas a verdade é que a China (com a ByteDance e a MiniMax também na corrida) está a apanhar o comboio a uma velocidade que assusta o Ocidente. O “February Model Rush” é real: os modelos chineses estão rápidos, baratos e bons.

Do outro lado, a xAI de Elon Musk continua a ser uma casa a arder. Mais co-fundadores fugiram esta semana. Um deles citou o medo de “loops de auto-melhoria recursiva” (o pesadelo da Singularity) estarem a acontecer demasiado depressa. Quando até o chefe de segurança da Anthropic sai a dizer que “o mundo está em perigo”, se calhar devíamos parar de rir dos memes do Elon e começar a prestar atenção a quem está a construir a bomba.

Conclusão: O Reset de Fevereiro

Estamos em meados de Fevereiro de 2026 e a sensação é de que o chão está a mexer. Os modelos estão a ficar demasiado bons para o nosso bem emocional (adeus, GPT-4o), demasiado perigosos para o nosso bem físico (cirurgias falhadas) e demasiado rápidos para a nossa economia (despedimentos falsos).

A tecnologia está a fazer um reset às nossas expectativas. O Google e a Anthropic tentam manter a postura de “adultos na sala”, focados no raciocínio profundo, enquanto a China e a xAI correm como loucos no recreio com tesouras na mão.

O meu conselho? Não se apaixonem pelo vosso assistente virtual, não confiem que o vosso chefe sabe o que está a fazer com a IA, e, se puderem, evitem cirurgias experimentais nos próximos meses.

A IA é uma ferramenta incrível, mas esta semana provou que, nas mãos erradas (ou programada pelas mãos erradas), pode partir corações e ossos.

Se querem navegar este caos com a cabeça no lugar, subscrevam o meu substack ou acompanhem as minhas crónicas no jornal “O CIDADÃO”. Aqui analisa-se a tecnologia com a frieza que ela exige, e com o humanismo que ela não tem.

Até para a semana!

Artigo publicado simultaneamente n’ O Cidadão e no substack do autor

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