Houve um momento em que a pergunta era direta: para quê viver, sabendo que a morte chega. Albert Camus escreveu a partir desse ponto de fricção, entre o humano que procura sentido e um mundo que permanece em silêncio. Hoje, a fricção deslocou-se. O problema deixou de ser o silêncio. O problema tornou-se o ruído. Tudo fala, tudo pede, tudo exige. O corpo pede pausa, o telemóvel vibra, o trabalho acumula, o mundo arde em tempo real, a política convoca, a vida íntima fica em espera. E eu aqui, a tentar decidir se respondo a uma mensagem ou se tento perceber o que estou a sentir. Às vezes já vou atrasado nas duas. Outras vezes só fico a olhar, como se alguém fosse escolher por mim.
Há um momento do dia em que isto fica quase absurdo no sentido literal. Abro o telemóvel para ver as horas e, passados minutos, estou a ler sobre uma crise internacional, um vídeo de um cão que “fala” e três mensagens por responder que, entretanto, já parecem urgentes. Fecho o telemóvel com a sensação de movimento sem deslocação. A loiça continua por lavar. O cansaço também. E aquela ideia que eu tinha há pouco desapareceu, mas com uma dignidade estranha, como se tivesse tido razão para sair.
O que mudou não foi a condição humana, foi a infraestrutura que a atravessa. Viver passou a exigir orientação contínua entre sistemas que operam em ritmos incompatíveis. O corpo funciona em ciclos, as plataformas em repetição, a sociedade em comparação, as instituições em atraso, o mundo em escala. Cada um destes planos emite sinais válidos. Nenhum resolve o conflito entre eles. A vida torna-se uma sequência de escolhas parciais, sempre em falta face a outra exigência igualmente real. O absurdo instala-se aqui: na impossibilidade de responder a tudo sem trair alguma coisa.
Camus escreveu: “É preciso imaginar Sísifo feliz.” O Mito de Sísifo A frase mantém-se, mas desloca-se. Sísifo já nem empurra apenas a pedra. Recebe notificações enquanto sobe. A pedra continua a cair. Ele também. E mesmo assim continua.
Talvez a pergunta já não seja para quê viver.
Talvez seja esta: a que falho hoje.

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