As competências valem mais do que os diplomas.
Uma frase moderna. Pragmática. Talvez até revolucionária. Sobretudo num tempo em que o mercado de trabalho muda tão depressa, em que a tecnologia está a alterar as nossas profissões e as empresas dizem precisar de pessoas capazes de resolver problemas, não só de apresentar certificados.
Permitam-me discordar da simplificação.
Não da valorização das competências! Porque essa é essencial… Discordo da pressa com que alguns parecem querer transformar o diploma numa espécie de relíquia. Como se estudar não fosse o construir pensamento, método, linguagem, disciplina. Conhecimento.
Eu amo ensinar. Talvez por isso tenha dificuldade em alinhar nesta leveza em desvalorizar o percurso académico.
Quem ensina sabe uma coisa que nem sempre cabe nas métricas de recrutamento. A educação transforma as pessoas. Não apenas os currículos. Pessoas!
E num país como Portugal, onde durante décadas estudar foi privilégio de poucos, convém termos algum cuidado antes de decretarmos a simbólica morte do diploma.
85% e 92% dos profissionais acreditam que os empregadores valorizam hoje mais as competências do que as qualificações formais. Em Portugal, cerca de 80% dos candidatos defendem que competências sólidas podem substituir a necessidade de um diploma universitário. E 78,5% dos profissionais portugueses reconhecem que a formação académica contribuiu para o acesso a melhores oportunidades de trabalho (estudo da Michael Page).
Ora bem, se quase oito em cada dez reconhecem que estudar lhes abriu portas, talvez seja melhor ter menos pressa a enterrar o valor dos diplomas.
O diploma já não chega. Mas continua a contar. E conta muito.
Segundo dados recentes da OCDE, os trabalhadores com ensino superior em Portugal ganham, em média, 74% mais do que os trabalhadores com ensino secundário. A taxa de emprego dos diplomados do ensino superior chega a cerca de 91%. Entre os 25 e os
34 anos, a taxa de desemprego é de 5,8% para quem tem ensino superior, contra 7,4% para quem ficou pelo secundário e 11,5% para quem não completou esse nível.
Estes números são economia real e mostram que estudar continua a ter retorno real. Mostram que a educação continua a proteger contra o desemprego. Mostram que o percurso académico continua a funcionar como elevador social, ainda que imperfeito, ainda que lento, ainda que por vezes demasiado desigual nos mecanismos de acesso.
Em 2023, 39% da população portuguesa entre os 15 e os 64 anos tinha, no máximo, o 3.º ciclo. A média da União Europeia era de 24,2%. Ou seja, Portugal melhorou muito, mas continua a carregar um pesado défice de qualificação de base.
É por isso que me inquieta esta conversa simplista contra os diplomas. Porque ainda precisamos qualificar mais a nossa população e, o pior sinal que podemos dar, é o de que estudar perdeu importância.
Não perdeu, mudou foi a exigência.
Hoje, estudar, já não significa cumprir o percurso formal, terminar uma licenciatura e esperar que o mercado nos recompense automaticamente. Esse tempo acabou. E ainda bem!
O diploma deve ser o ponto de partida. Não a meta.
Precisamos de pessoas que saibam fazer, sim. Mas também precisamos de pessoas que saibam pensar o que fazem. Pessoas capazes de interpretar contexto, ligar conceitos, questionar soluções fáceis, compreender sistemas, comunicar e decidir.
Isto não se improvisa. Aprende-se. Treina-se. Cultiva-se. Seja na escola, na universidade, na formação profissional, na empresa, no trabalho diário, na experiência acumulada. Mas sempre através de um processo sério de aprendizagem.
Há pessoas altamente competentes sem formação superior, e muito bem. Há também diplomados sem um mínimo de maturidade profissional. Há talento que simplesmente não cabe nos filtros tradicionais. Há profissões em que a formação formal é indispensável, por razões técnicas, éticas e legais.
Ninguém quer ser operado por alguém que tem apenas “competências práticas” sem formação médica. Eu não quero, certamente!
Ninguém quer ser defendido em tribunal por alguém que aprendeu direito em vídeos no TikTok.
Ninguém quer atravessar uma ponte calculada por alguém que “tem jeito” para estruturas.
Há áreas em que simplesmente, o diploma, é responsabilidade.
Mas também há funções onde excluir automaticamente quem não tem diploma é um terrível desperdício de talento. E Portugal, que justificadamente tanto se queixa da falta de mão-de-obra qualificada, não pode dar-se ao luxo de desperdiçar talento pela preguiça de avaliação.
Em Portugal, a participação dos adultos em aprendizagem ao longo da vida caiu de 38,0% em 2016 para 33,4% em 2022, abaixo da média europeia de 39,5%. Este dado deveria preocupar-nos mais do que muitas polémicas menores porque a economia que aí vem não vai premiar apenas quem estudou até aos vinte anos. Vai premiar quem continua a estudar aos trinta, aos quarenta, aos cinquenta. Vai premiar quem não tem vergonha de voltar a aprender. E eu gostava que Portugal fizesse desta ideia uma causa nacional.
Não o estudar para ter estatuto, mas estudar para ter liberdade, para compreender melhor, para negociar melhor, para liderar melhor, para não depender sempre da interpretação dos outros.
É por isso que continuo a acreditar no percurso académico como elevador social.
Não porque ignore as suas limitações. Conheço-as bem. Sei que há desigualdades no acesso. Sei que há cursos desalinhados com o mercado. Sei que há instituições que ensinam pouco e certificam demasiado. E sei que há profissionais brilhantes que nunca tiveram oportunidade de frequentar o ensino superior.
Mas sei também que, para milhares de pessoas, estudar continua a ser a forma mais séria de mudar de vida.
Foi assim durante décadas. Continua a ser assim hoje.
A diferença é que agora já não basta estudar uma vez. O novo elevador social chama-se aprendizagem permanente.
O diploma abre a porta. As competências permitem atravessá-la. A experiência ensina os sítios certos onde pisar. O carácter decide o que fazemos quando lá chegamos.
Talvez seja esta a síntese mais justa.
Não devemos escolher entre diplomas e competências. Devemos recusar essa falsa oposição. O país precisa de mais formação superior, não de menos. Precisa de mais formação profissional de qualidade. Precisa de empresas que avaliem melhor. Precisa
de universidades mais próximas da economia real. Precisa de trabalhadores que não parem de aprender.
E precisa, sobretudo, de deixar de tratar a educação como um custo.
A educação é infraestrutura. Talvez a mais importante de todas.
As competências valem mais do que os diplomas
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Doutorado em Administração de Empresas | Consultor e Formador | Fundador da MindsetSucesso | Investigador em Sucessão Empresarial, Liderança no Feminino e Desenvolvimento de Talento














