A fome como arma de guerra – Por Onofre Varela

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Netanyahu comete atrocidades em Gaza de acordo com um plano que idealizou no sentido de promover a fome naquela região da Palestina, não permitindo a distribuição de comida ao povo nos lugares onde está, estabelecendo três centros distribuidores de água e alimento perto da fronteira do Egipto, obrigando à deslocação dos palestinos esfomeados que, assim, deixam o território deserto à mercê da ocupação mais facilitada dos israelitas, para que possam concretizar mais facilmente a terraplanagem de acordo com o projecto de transformação daquela faixa em estância balnear para ricos.

Penso que tal intenção imobiliária não será concretizada porque, ao fazê-lo, Israel desrespeitaria a propriedade territorial da Palestina o que, em meu entender (que não sou especialista em geopolítica nem em legalidades territoriais) será ilegal à luz do Direito Internacional.

Neste momento, porém, vive-se em clima de guerra, sob o qual os direitos dos palestinos, não só, nunca são respeitados, como, propositadamente, são espezinhados, com um exército de malfeitores instruídos por Netanyahu para destruírem e matarem indiscriminadamente, incluindo o assassínio de povo indefeso que pede comida… só porque sim.

Trump tem interesse imobiliário na região para construir o que sonhou como a “Riviera do Médio Oriente”. Para si a legalidade é letra morta, e Netanyahu adora aquele americano louro, filho de imigrante alemão, tratando-o por “amigo de Israel”, como se o interesse económico de um, e o interesse de guerra do outro, fosse compatível com algum sentimento de amizade.

Entretanto o mundo divide-se entre os ditadores de Direita que apoiam as maldades de Trump e de Israel, e os democratas liberais que perdem força perante uma nova Direita asselvajada que faz tudo quanto quer.

A fome que Netanyahu decretou na Palestina, tomando conta da distribuição da comida para obrigar a população esfomeada a deslocar-se para onde ele quer, é usada para tentar eliminar o povo palestino num genocídio idêntico ao que Hitler usou com os judeus, mas substituindo as câmaras de gás por fome, levando crianças à morte por inanição.

E o mundo assiste a este horror… e deixa!… Não há instituições internacionais que possam impedir tais crimes?! O que fazem os países democráticos cujos governos não aprovam a acção maléfica do governo judeu?

Famílias inteiras assassinadas e as suas casas demolidas umas após outras, com rebentamento de bombas que produzem mais mortes e crianças estropiadas. Os colonos israelitas radicais dispersos pela Cisjordânia ajudam no arrasar da Palestina para poderem colonizá-la, sendo apoiados pelo exército e por todos os outros judeus-colonos que também têm a sua quota parte de responsabilidade no que está a acontecer.

A atrocidade de se reter alimento e água – incluindo comida para bebés – com a intenção de se deixar a população palestina morrer à fome, já deixou de ser notícia alarmante… o mundo parece insensível ao sofrimento e habituou-se a ver nas maldades de guerra acções normais com a desculpa de que “ambas as partes são maldosas”. Entretanto Netanyahu imagina deter o poder dos deuses para concretizar uma limpeza étnica, impunemente.

Os noticiários dão-nos conta de que os palestinos são assassinados às centenas quando procuram comida nos postos fantasma rotulados de “ajuda humanitária”, que de humanidade nada têm. Quatro centros de distribuição de comida para uma população de mais de dois milhões de pessoas, não é mais do que a forma conseguida por Netanyahu, não para “matar a fome”, mas para “matar à fome” os palestinos, destruindo a dignidade dos (im)prováveis sobreviventes.

E o mundo assiste e deixa!…

As organizações humanitárias que actuavam no território foram escorraçadas por Israel (como terminaram com os hospitais, destruindo-os) para, com a ajuda de Trump se criar uma entidade fantasma com o pomposo nome de “Fundação Humanitária de Gaza”, tudo isto camuflado pelo fumo das bombas e da desinformação de guerra, não distribuindo comida na proporção das necessidades, propositadamente, para que o genocídio aconteça com mais celeridade.

E o mundo assiste e deixa!…

O jornalista israelita Gadi Algazi conta no jornal El País (20 de Julho de 2025) que o plano genocida foi iniciado há pouco tempo e os resultados já são dramáticos. Todo o mundo já viu fotos de “esqueletos com pele” que são as crianças desnutridas.

Onde está a pressão internacional, suficientemente pesada, para pôr fim ao genocídio?

Gadi Algazi (historiador israelita e fundador do grupo de jovens soldados que se negaram a prestar serviço militar nos territórios ocupados – pelo que foi condenado a um ano de cadeia – diz que Israel aproveitou as atrocidades do grupo Hamas, a 7 de Julho de 2023, para ter a oportunidade de pôr em prática dois grandes projectos:

O primeiro é imperialista, no sentido de conseguir a hegemonia regional, do qual fazem parte os ataques militares ao Líbano, à Síria e ao Irão. O segundo é um projecto colonialista contra os palestinos, não só os de Gaza, mas também os que vivem na Cisjordânia debaixo da ocupação militar israelita, transformando os palestinos em cidadãos de segunda classe mediante a erosão dos seus direitos civis”.

E o mundo assiste a este horror… e deixa!




NOTA – Já tinha enviado este texto para o jornal, quando foi divulgado que “Reino Unido, França e Alemanha pediram ao governo israelita que suspenda imediatamente as restrições à distribuição de ajuda e permita urgentemente que a ONU e as ONGs humanitárias realizem o seu trabalho de combate à fome. A declaração dos três governos lembrou a Israel que deve cumprir as suas obrigações segundo o Direito Internacional Humanitário“. Esta nota parece-me importante porque no texto refiro mais do que uma vez a ideia de que “o mundo assiste e deixa“. Parece que parte do mundo [a Europa civilizada] acordou para a realidade e reivindicou o fim da guerra genocida. Espero que a Europa não fique por aqui. 

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