
O Porto, meu Porto.
A cidade que me viu nascer e crescer, a que me moldou o sotaque e as memórias, está a tornar-se uma estranha. E o meu coração aperta-se. Vemos as fotografias de um postal, os prémios internacionais e os elogios, mas onde estão os portuenses nesta imagem perfeita? Onde estamos nós?
A dor não está no progresso, mas no preço que pagamos por ele. As nossas casas, os nossos lares, são agora peças de um tabuleiro financeiro, inacessíveis para os nossos filhos e netos. Onde antes se ouvia o riso das crianças na rua, ouve-se agora o som das malas de rodinhas e de portas que se fecham a cada duas noites. As nossas mercearias, os nossos pequenos negócios, que eram a nossa família alargada, foram trocados por conceitos que nos são alheios, vazios de alma e de história.
Não se trata de ser contra o turismo; a nossa cidade sempre foi e será acolhedora. O que nos preocupa é a sua falta de controlo, a forma como se tornou uma força que, sem querer, descaracteriza o que somos. É um crescimento que devora o tecido social, que empurra as nossas raízes para a periferia, e que transforma a nossa casa num lugar de passagem.
A cidade, que sempre foi um refúgio, parece ter-se esquecido de cuidar de si. As ruas que nos serviram de palco e de recreio, mostram hoje o desprezo de quem não as habita. A sujidade, a falta de cuidado, os dejetos dos animais, e sim, as baratas que nos envergonham, são feridas abertas no corpo da nossa cidade, que clamam por atenção. É um paradoxo cruel: vendemos a imagem de um Porto limpo e belo, enquanto a nossa realidade quotidiana se torna cada vez mais suja e descuidada. As ruas, que durante o dia têm o brilho do comércio, à noite, depois de as luzes se apagarem, revelam o abandono e a imundice que se acumula, tornando-as um lugar a evitar.
E, juntamente com o aspeto, a sensação de segurança também se desvanece. Onde antes podíamos caminhar tranquilamente a qualquer hora, hoje há zonas que evitamos, lugares onde o medo se instala. A insegurança não é apenas uma estatística; é o receio que sentimos ao voltar para casa, é a hesitação de deixar os nossos filhos brincar na rua. É um peso que o Porto não devia ter.
O meu medo é que estejamos a construir uma cidade de fachada, uma cidade de vidro, onde a nossa alma é a única coisa que nele se reflete. Estamos a tornar-nos figurantes na nossa própria história, a assistir ao espetáculo enquanto a nossa casa se desmorona.
Mas não podemos ser silenciados. A nossa voz tem de se fazer ouvir. A minha preocupação é a preocupação de muitos: a de que o sucesso do Porto não seja medido apenas em número de turistas, mas em sorrisos dos portuenses. Que seja uma cidade onde os nossos filhos possam viver, onde a nossa história seja honrada e onde a nossa alma, o nosso sotaque, o nosso coração, continue a ser o nosso maior orgulho.
O Porto tem de ser sempre e acima de tudo, a nossa casa.
Licenciada em Gestão de Negócios/Consultora Gestão de Projetos/Terapeuta














