O primeiro networking da nossa vida

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Esta semana vi uma fotografia que me fez parar.
Não era uma fotografia de um grande líder.
Não era uma fotografia de uma empresa milionária.
Não era uma fotografia de uma conquista tecnológica.
Era uma fotografia de um estádio.

Um estádio cheio.
Oito mil pessoas reunidas em Santiago do Chile para trocar cromos do Mundial 2026.
O curioso é que o Chile nem sequer estará presente no Mundial.
Mas isso não impediu milhares de pessoas de se juntarem.
Quando vi a imagem, não pensei em futebol.

Não pensei na Panini.
Não pensei nos milhões que esta indústria movimenta.
Pensei em pessoas.

Pensei que, num mundo onde quase tudo acontece através de um ecrã, oito mil pessoas decidiram sair de casa para conversar com desconhecidos.
Para criar ligações.
Para trocar algo.
Para partilhar uma paixão.

E então lembrei-me de uma coisa.
Talvez os cromos tenham sido o primeiro networking da nossa vida.
Muito antes do LinkedIn.
Muito antes dos cartões de visita.
Muito antes das reuniões de negócios.

Já nós andávamos nos recreios a fazer exatamente a mesma coisa.

Tenho este repetido.

Falta-me aquele.

Queres trocar?

Sem darmos conta, aprendíamos algumas das competências mais importantes da vida.
Aprendíamos a comunicar.
Aprendíamos a negociar.
Aprendíamos a ouvir.
Aprendíamos a criar relações.
Aprendíamos que, muitas vezes, a melhor forma de conseguir aquilo que queremos é ajudar primeiro alguém a conseguir aquilo que procura.

Curiosamente, é exatamente assim que funciona o networking verdadeiro.

Não se trata de vender.
Não se trata de tirar vantagem.
Não se trata de acumular contactos.

Trata-se de criar valor.
De gerar confiança.
De construir relações que fazem sentido.
Os cromos ensinaram-nos isso muito antes de sabermos o que significava a palavra networking.
E talvez seja por isso que continuam a fascinar tantas pessoas.
Porque os cromos nunca foram apenas cromos.

São histórias.
São memórias.
São encontros.
São desculpas para conversar.

Num mundo cada vez mais rápido, mais digital e mais individualista, talvez exista algo profundamente bonito em ver milhares de pessoas reunidas apenas para trocar pequenos pedaços de papel.

Porque no fundo não estão a trocar cromos.
Estão a trocar experiências.
Estão a trocar emoções.
Estão a trocar momentos.

E talvez essa seja a grande lição.
O valor de um cromo nunca esteve na fotografia impressa.
Nem na raridade.
Nem no dinheiro.
Sempre esteve na conversa que ele gera.

Hoje falamos muito de inteligência artificial, automação e tecnologia.
Mas ao olhar para aquela fotografia no Chile percebi uma coisa simples.
O futuro pode mudar quase tudo.

Mas enquanto existirem pessoas à procura de outras pessoas, haverá sempre esperança.
E talvez seja por isso que continuamos a abrir saquetas.
Não à procura de cromos.
Mas à procura de ligação.

Porque no fim, tal como na vida, os cromos são apenas uma desculpa.
O que realmente procuramos são pessoas.

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