E isto não é sobre professores – Mas é preciso falar deles.

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Todos somos testemunhas da luta que os professores travam pelo reconhecimento justo da sua profissão e não é apenas uma questão salarial; é também uma questão de dignidade e respeito institucional e social. Já vivemos tempo demais na incerteza de contratos a termo, concursos sucessivos, colocações longe da família, quilómetros acumulados em estradas que não aparecem nos relatórios ministeriais. Eu e muitos docentes tivemos as carreiras congeladas, progressões adiadas, avaliações exigentes que nem sempre refletem o verdadeiro impacto do nosso trabalho. Apesar disso esperam de nós inovação constante, resultados imediatos e uma disponibilidade quase ilimitada. E nós respondemos.

Mas andamos cansados. Um cansaço que não se vê nas cerimónias oficiais, nem nos discursos inflamados sobre o futuro da nação. Um cansaço feito de madrugadas a corrigir testes, de reuniões intermináveis, de burocracias que se acumulam como poeira sobre a vocação.

Os problemas que cada aluno enfrenta no dia a dia são múltiplos e complexos: ansiedade, pressão para corresponder a expectativas familiares, dependência tecnológica, conflitos identitários, carências afetivas, dificuldades económicas. A escola, muitas vezes, torna-se o único espaço estruturado e seguro que conhecem. E o professor, para além de ensinar conteúdos curriculares, aprende a reconhecer sinais de alerta, a mediar conflitos, a orientar para serviços de apoio, a oferecer palavras que funcionam como pequenas âncoras. O ambiente escolar tornou-se um retrato fiel das desigualdades da sociedade.

Ensinar, hoje, é um dos maiores desafios, é disputar atenção num mundo dominado por notificações constantes. É competir com vídeos de segundos e algoritmos que conhecem melhor os gostos dos alunos do que muitos adultos à sua volta.

É tentar mostrar que o conhecimento exige tempo, esforço, concentração – valores quase subversivos numa cultura de imediatismo. Ao mesmo tempo, exige-se diferenciação pedagógica, inclusão plena, adaptação a múltiplos ritmos de aprendizagem. Turmas heterogéneas pedem respostas individualizadas, mas os recursos nem sempre acompanham o discurso oficial.

Mas o professor está ali atento e disponível.

E depois vêm os rankings das escolas, apresentados como instrumentos de transparência e qualidade. Reduzem anos de trabalho a uma média numérica, normalmente baseada em resultados de exames. Ignoram contextos socioeconómicos, taxas de retenção anteriores,

desafios específicos das comunidades educativas. Colocam lado a lado realidades profundamente distintas, como se a linha de partida fosse a mesma para todos. Não é! Nunca foi!

As consequências são visíveis. Temos famílias a mudar de residência em função da posição de uma escola na tabela. As direções das escolas sentem a pressão dos números. E voltamos aos professores que são avaliados, implicitamente, pelo lugar que a instituição ocupa no ranking. Cria-se uma lógica de competição que pode fragilizar a cooperação entre escolas e reforçar desigualdades: as que já partem de contextos favorecidos tendem a manter posições cimeiras, enquanto as que enfrentam maiores desafios lutam contra um estigma quase permanente.

Entretanto, o trabalho invisível continua. Continua o professor que insiste em não desistir daquele aluno considerado problemático ou mais desfavorecido. Continua a organizar atividades culturais para alargar horizontes a quem raramente sai do bairro. Continua a implementa projetos de inclusão, mesmo sem reconhecimento mediático.

E sobretudo, continua a dar colo.

São estas vitórias pequenas, muitas vezes caladas, mas profundamente transformadoras que o professor guarda no seu percurso de vida.

Que tipo de educação queremos? Uma que privilegia números e comparações ou uma que valoriza percursos e superações?

Reconhecer a profissão docente implica compreender que o seu impacto raramente é imediato ou facilmente quantificável. Forma-se carácter, pensamento crítico, cidadania, tudo o que não cabe numa tabela classificativa.

Os professores não pedem medalhas nem aplausos ocasionais, pedem coerência nas políticas e respeito no discurso público. Pedem que se compreenda que a escola não é uma fábrica de resultados, mas um espaço de construção humana.

Enquanto continuarem a entrar nas salas de aula com essa convicção, haverá esperança de que a educação continue a ser o alicerce de uma sociedade mais justa.

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