“A profissão mais antiga do mundo” refere-se, na sua aceção mais comum e popular, à prostituição. E a frase repete-se com um encolher de ombros, como se a antiguidade justificasse a permanência. Como se o tempo absolvesse a falha. Mas talvez devêssemos inverter a pergunta: se é assim tão antiga, o que é que isso diz sobre nós?
Quando era criança ouvia sussurros que fulana e sicrana iam para os 5 Caminhos, local de prostituição. Mais tarde percebi que, à boca calada, falavam delas como se fossem pecadoras e infiéis. Com desdém.
Hoje, as mulheres continuam a sair de casa logo que os seus filhos adormecem. Beijam-lhes a testa como quem assina um pacto silencioso com a culpa. Depois descem as escadas devagar, para que o prédio não as oiça, porque o julgamento tem ouvidos finos e língua afiada.
Nenhuma sonhou com aquele lugar na esquina. Sequer a desejar as noites desamparadas da rua, o néon frio, o vidro do carro que desce apenas o suficiente, para se ciciar o preço como se fosse uma vergonha partilhada. Nenhuma sonhou ter o seu corpo em saldos.
Tinham o desejo de uma vida simples: contas pagas, comida na mesa, cadernos novos em setembro. Cresceram a desejar dignidade – essa palavra tão usada por quem nunca teve de a vender à hora.
A prostituição nunca existiu isolada. A prostituição de rua não nasce do excesso; nasce da falta. Falta de emprego estável, de creches acessíveis, de salários que não encolham antes do fim do mês. Nasce da infância interrompida, escola abandonada cedo demais, violência doméstica que ensinou que o corpo não era território seguro, da exclusão. Falta de rede. Falta de colo social. É o retrato cru de um sistema que falha e depois aponta o dedo à consequência. Ela cresceu sempre onde havia desigualdade; ela sobreviveu às revoluções industriais, às crises financeiras, às promessas de emancipação feminina.
Mudaram as luzes, mudaram os códigos, mudaram as plataformas. Mas a raiz permanece: vulnerabilidade. A prostituição é de certa forma uma herança invisível. Muitas destas mulheres já vinham feridas.
A prostituição não é o início da história, é, tantas vezes, o último capítulo de uma sucessão de portas fechadas e caminhos cruzados.
Muitas vezes ouvimos dizer que é escolha; mas que escolha é esta quando o frigorífico grita por leite e não há botas para o frio? Quando a renda sobe mais depressa do que o salário mínimo? Quando a promessa de um contrato digno se desfaz em recibos verdes e horários impossíveis? A liberdade pressupõe alternativas. E muitas destas mulheres vivem na estreita margem entre o corpo ou a fome.
Não romantizo. Não moralizo. Não ignoro os riscos; físicos, psicológicos, humanos. Sei que a rua é fria no pico do inverno e impiedosa no verão. Sei que há violência, exploração, tráfico, medo e desumanização. Sei que há homens que compram minutos e esquecem que estão diante de uma pessoa inteira, com nome, passado e filhos.
Mas também sei que a fragilidade social está a engrossar as filas ocultas da noite. A crise não se mede apenas pelo preço do pão; mede-se pela quantidade de corpos que passam a ser moeda. E isso devia inquietar-nos mais do que qualquer estatística.
Nestas esquinas há também o peso da solidão e vergonha. Porque a prostituição de rua é um trabalho feito à vista de todos e, paradoxalmente, numa solidão absoluta. Não há colegas que defendam, nem sindicato que proteja, nem seguro que cubra a agressão. Há apenas outras mulheres na mesma condição, partilhando olhares cúmplices e um café apressado antes da noite começar. Uma sororidade frágil, feita de sobrevivência. Estas mulheres vivem uma precariedade que não é só económica, também é emocional.
Talvez a questão não seja a antiguidade da profissão, mas a persistência das debilidades. Num tempo em que tudo se discute, ainda não resolvemos o essencial: garantir que ninguém precise vender o próprio corpo para pagar a renda ou comprar leite. Talvez devêssemos falar menos sobre moral e mais sobre estruturas. Menos sobre escolhas individuais e mais sobre responsabilidade coletiva. Porque enquanto discutimos valores, há mulheres que continuam a negociar minutos para garantir o essencial. Não adianta falarmos de direitos, erguer bandeiras de igualdade, enquanto não houver segurança económica e equidade social.
Talvez um dia possamos dizer que nenhuma mulher teve de trocar a noite pela sobrevivência. Que a dignidade deixou de ser um luxo. Que as fragilidades foram tratadas antes de se tornarem feridas abertas nos escombros da noite.
Professora e Escritora














