Mulher: A Linha do Horizonte Onde Todos os Mundos Se Tocam

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Foto de NINA UKLIKOVA

Há países que nos moldam o olhar e cidades que nos ensinam a respirar. Mas é a Mulher — em cada canto do planeta — que nos devolve o espanto primordial de existir. A Mulher é o primeiro rumor do mundo, o fulgor inicial que antecede a própria luz. É nela que o tempo aprende a andar e o coração encontra o seu compasso.

Respirei a Mulher em Paris, onde o Sena parece escorrer do próprio corpo do tempo e onde cada rosto feminino guarda a leveza de um poema nunca terminado. Vi-a no seu passo firme sobre calçadas e fachadas antigas, onde cada movimento é já uma revolução delicada, onde cada gesto devolve à cidade a sua forma original: humana, simples, luminosa. A forma como ajeita o casaco, como inclina o rosto à luz, como oferece o olhar ao dia — tudo nela é claridade contida, sensualidade serena, a mesma transparência que Saint‑Exupéry pressentiu quando escreveu que “o essencial é invisível aos olhos”. Ali, a Mulher é esse essencial que se revela aos poucos.

Respirei a Mulher em Portugal — nas praias que guardam o silêncio do regresso, nas aldeias e cidades que carregam o sal da memória. Aqui, a Mulher é raiz que não envelhece, é porto que nunca fecha, é farol escondido que te acende quando julgas já nada ver. A Mulher Portuguesa tem no olhar a lisura da luz de Sophia, tem na voz a melodia baixa da maré que sobe mansinha em Caminha, tem nos gestos a mesma contenção terna com que Pessoa atravessava Lisboa. É aquela que, na sua aparente subtileza, me lembra que a vida só avança quando o Amor avança. A pele dela não queima; conforta. O beijo não assalta; revela. A coragem não grita; sustém. Há nela uma força funda, forte que levanta casas, dias, famílias inteiras, como quem levanta o próprio país sem que ninguém note.

Respirei a Mulher no Brasil, onde a luz tem outra harmonia. A Mulher brasileira oferece ao mundo uma dança de coragem e riso, uma força antiga que não teme tempestades. É um corpo de sol e voz de esperança. Há nela o ritmo ancestral que Drummond encontrou nos becos de Minas, a alegria que se acende no instante em que a pele respira, a forma como acolhe e se abre — com braços que são porto e calor que é bússola. O abraço brasileiro cura na exata medida em que acolhe: cura devagar, cura por dentro, cura no lugar onde o silêncio também dói.

Respirei a Mulher em Cabo Verde — terra que me adotou com a generosidade de quem sabe que o mar não separa: aproxima. Ali, a Mulher é o vento que levanta o pó da alma e lhe dá forma. É poema vivo, tal como tanto escrevi um dia, entre estas ilhas, no silêncio azul e húmido da tarde:

“A Terra donde brota o Amor de água límpida e transparente… é ela.”

É morna que vem do fundo da terra, olhar de sol poente, riso que fica na pele mesmo depois de partir.

Respirei a Mulher na Tunísia, essa porta para o deserto e para o mistério. A Mulher tunisina carrega no olhar a memória dos ventos do Saara, a sabedoria de quem resiste sem alarde, a firmeza de quem aprendeu a dar sombra mesmo onde não há árvores. Há nela um silêncio que ensina, uma sensualidade discreta e secreta inscrita na forma como o lenço pousa no ombro, como o passo escreve desenhos na areia, como a noite se deita devagar sobre o rosto. A Mulher tunisina é oásis e miragem ao mesmo tempo — presença e encanto.

Respirei a Mulher em Moçambique, onde o chão parece pulsar com mais força. A Mulher aqui é canção de colheita, guerreira de uma ternura dura, matéria sagrada que sustém famílias inteiras, aldeias inteiras, sonhos inteiros. Ela guarda na pele um mapa antigo que veio da terra, e nos olhos uma coragem que Senghor reconheceria como “luz que levanta o mundo”.

Respirei a Mulher no Canadá — vertical, austera, imensa na sua dignidade. Mulher que enfrenta invernos sem perder a primavera guardada nos gestos. Mulher‑fonte, mulher‑monte, mulher que acolhe mundos inteiros dentro do seu abraço contido. A sua carícia não é fogo: é lareira. Não é impulso: é aconchego. Há uma ternura invernal nos seus passos que ensina a paciência do calor.

Respirei a Mulher nos Estados Unidos, onde cada rua parece uma encruzilhada de histórias. Ali, a Mulher é multiplicidade: liberdade que se afirma, consciência que se ergue, voz que se recusa a silenciar. O seu olhar não pede licença; abre caminho. A sua presença não exige palco; é o palco. Há nela ecos de Neruda — uma força que é metáfora viva, poema que não precisa de papel.

E em todos estes lugares — Paris, Portugal, Brasil, Cabo Verde, Tunísia, Moçambique, Canadá, EUA e muitos outros — descobri que a Mulher é universal não pela semelhança, mas pela plenitude: ela é a força que une o que é diferente, o sopro que liga o que é distante, a calma que sustenta o que se desfaz.

Como escrevi, tentando captar esse indizível:

“As Mulheres, na sua aparente fragilidade, superam o Homem pela sua força interior. São couraçados vestidos de seda e púrpura. São guerreiras”

Cada país ensinou‑me um rosto. Cada rosto ensinou‑me um território. E cada território ensinou‑me o essencial: tudo se resume a Amar.

Amar é ver a Mulher com respeito e transparência. É reconhecer‑lhe o direito à sua voz, ao seu corpo, ao seu destino. É proteger sem aprisionar, cuidar sem dominar, acompanhar sem exigir. Amar é saber que a carícia é linguagem, o olhar é casa, o beijo é porto, e a coragem — sempre — é dela.

A Mulher é o ponto onde o mundo se levanta. É o centro secreto onde regressamos sempre que precisamos de reencontrar o humano. É o princípio e é o eco. É o silêncio que salva e a palavra que ilumina.

E como escrevi noutra ocasião: “Somente o Amor e a Arte tornam a Vida mais suportável.”

A Mulher é ambas: a Arte que nos devolve a forma e o Amor que nos devolve sentido.

Hoje, 8 de março, deixo esta crónica como quem devolve ao mar aquilo que recebeu em ondas sucessivas: gratidão, respeito, maravilhamento. A todas as mulheres do mundo — das grandes capitais às aldeias silenciosas, das ilhas distantes aos desertos infinitos — deixo o meu reconhecimento profundo:

Vocês são o lugar onde a vida recomeça. O horizonte onde a humanidade respira. A luz que nenhuma distância apaga.

Feliz Dia da Mulher.
Hoje, amanhã e sempre — em todos os cantos do mundo onde o Amor decide nascer.

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