Prometi mais do que podia sustentar

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Há um momento em que me prometo coisas porque quero muito que o mundo mude, mesmo quando tudo indica que ele seguirá exatamente como está.
Esse gesto nasce da necessidade de continuidade, de uma tentativa quase física de alinhar desejo, tempo e identidade, como quem ajusta o passo para evitar a sensação de se desfazer por dentro.

O desalento aparece quando a minha vontade avança e o mundo permanece no lugar, criando um desfasamento que só se torna evidente depois de o corpo já ter entrado em movimento.

A promessa cumpre a sua função. O atrito surge depois, quando a decisão segue em frente e as condições continuam rígidas, com o tempo comprimido, o corpo a pedir margem e o contexto a responder com inércia.
Sigo, tento, avanço alguns metros, e é nesse avanço que se torna impossível ignorar a imobilidade do cenário. O esforço serve, então, menos para abrir caminho e mais para tornar visível aquilo que não cede.

O desalento instala-se aí.
Nem sempre é profundo. Nem sempre é justo.
Às vezes surge apenas porque prometi mais do que estava disposto a sustentar.
Há promessas que, em vez de transformarem a realidade, revelam apenas que ela permaneceu igual.

Ontem foi assim para mim. Um dia comum, desses que nem pedem explicação, mas que mesmo assim pesam.
O corpo respondeu antes de qualquer conclusão. Chocolate, banho quente, calor, doçura. Gestos simples, quase primários, suficientes para devolver alguma margem e evitar a tentação de exigir mais quando tudo à volta permanecia intacto.

Aquilo foi contenção, não solução. Um modo de preservar energia num momento em que insistir significaria repetir o mesmo erro com mais cansaço.
Chamo desalento a esse intervalo entre a vontade e uma realidade que resiste, um espaço estreito onde a ação abranda e a leitura se afina.

É ali que errar melhor se torna possível, não por virtude nem por aprendizagem exemplar, mas porque a ilusão inicial perdeu força e deixou lugar a uma tentativa mais precisa.
Continuar, para mim, raramente significa avançar. Muitas vezes significa ficar, aquecer, adoçar, aceitar a pausa como parte do movimento e permitir que o dia seguinte exista.

A música suspende-se.
O espaço, ainda assim, mantém-se habitável.


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