Perdi-te na guerra, filho. E agora, perdi também a minha vida – Por José Rodrigues

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O coração de mãe é diferente de todos os outros, filho. É um gigante, sim. Como tu o fizeste assim crescer com cada pedaço da felicidade que me deste, por te ter tido junto a mim.

Este martírio, o não saber como viver, não tem intervalos. Ou antes, tem. Mas curtos, mesmo que folhas do calendário virem, as horas acelerem ou as estações do ano se sucedam. E as pessoas próximas, aquelas que ficaram para além de ti, mesmo que lutem por aliviar o meu peso de cada um dos dias que acontecem, não ficam da mesma forma. Espreitam, vão dando sinais da sua presença, mas despedem-se e partem para os seus próprios mundos. Este martírio não tem compaixão e relembra-me, tal como uma doença crónica, que as suas fases agudas nunca mais me vão deixar, incluindo os instantes de desespero absoluto, com os quais não sei lutar.

Agora tenho uma ferida que não vai cicatrizar. Mas queria ter antes um mar. Para ser admirado, pela sua beleza e imensidão, ao ponto de, à luz dos meus olhos, os de mãe, me parecer que nunca teria um fim.

Mas até o mar, meu filho, foi feito para ser abraçado todos os dias, de preferência com cada um dos os pedaços do meu corpo e da minha alma que passaram a ser, desde o teu primeiro dia no mundo, também teus.

Queria que tivesses sido tu a perder-me. Na guerra, ou até mesmo no mar, o tal que agora não consigo admirar. E se eu pudesse, deixaria que ele me levasse, só para que tu o pudesses voltar a fazer.

Perdi-te na guerra, filho. E agora, perdi também a minha vida.

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