É preciso passar a mão pelo cabelo de todas as Auroras…
A cidade corre sem saber bem para onde, como se tivesse descoberto a pressa por acaso. As ruas apinhadas de carros, pessoas que apressam o passo, como se cada minuto roubasse um pedaço de si. No meio desse frenesim, uma janela pequena, discreta, onde o tempo parece ter decidido ficar mais devagar: a estação de comboios, sob um céu pardacento anunciando uma chuva miúda.
Naquela estação, entre bilhetes e anúncios roucos em alto-falante, vivia a Ti Aurora, assim chamada com carinho. Não era a mais velha das redondezas, mas parecia carregar o peso de todos os outonos que já tinha visto. O cabelo branco, que outrora reluzia quando o sol entrava pela janela da cozinha, tinha perdido o brilho em favor de uma serenidade que assustava quem não a conhecia.
Aurora morava com o seu silêncio – um silêncio que falava quando o mundo falava alto demais. Jantava cedo, lia as revistas que deixavam por ali, nos bancos de ferro da estação. Quase sempre eram notícias adormecidas, coisas que já tinham passado, mas que a ligavam a um mundo fora de prazo. Gostava de recortar e guardar na gaveta do velho aparador, algumas imagens de rostos que volta e meia via na televisão. Dizia que eram memórias avulsas.
Quando as pernas o permitiam e, o outono chegava, Aurora ia até ao parque da cidade, onde as idades se empilhavam, como as folhas amarelecidas sob os pés cansados. Havia ali uma geração que se dissolvia em passos curtos, em conversas que terminavam antes de começarem. As crianças corriam atrás de pombos, riam de histórias inventadas, e por cada risada havia um avô de olhar atento, com o que restava de uma memória que insistia em não abandonar o corpo.
Na estação, Aurora encontrava uma espécie de abrigo: um banco que conhecia cada um dos seus respiros e um anúncio antigo que dizia, em letras gastas, “Bem-vindos ao país dos encontros”. O tempo não era inimigo, era testemunha. Aurora contava histórias para quem quisesse ouvir – e muitos ouviam, sem querer, o eco de uma vida que parecia ganhar novas cores à medida que o outono recolhia as folhas do passado.
A cidade, no seu corre-corre, oferecia, a quem quisesse ver, uma visão cruel de si mesma. O Outono não era, para muitos, apenas uma estação; era a lembrança de que a vida, embora colorida, tem a tendência de marchar para a distância. E quando as folhas caíam, deixavam no chão, a evidência de que, por entre as cortinas das janelas, existem pessoas que continuam ali, ao lado do corredor da vida, esperando que alguém escolha a dar-lhes tempo.
Foi assim que, numa manhã cinzenta, um jornalista que passava pela estação, ao ouvir o sussurro de Aurora, decidiu escrever sobre aquilo que ninguém quer ver: os idosos esquecidos pela família e pela sociedade. Não era uma denúncia de crueldade; era uma tentativa de mostrar que o abandono não é apenas a ausência de cuidado, mas a ausência de presença. O jornalista percebeu que, para muitos, o outono não é apenas uma cor; é o lembrete de que o tempo pode transformar-se num lugar onde as pessoas já não cabem nas rotinas dos outros.
Quando a notícia saiu, a cidade começou, lentamente, a olhar os que vivem no silêncio das suas casas. Os que através das pequenas janelas, veem encurtado o horizonte.
As crianças passaram a visitar o parque da cidade e a ouvir histórias. Um grupo de vizinhos organizam visitas voluntárias às casas dos idosos; não para fazer “o trabalho dos outros”, mas para partilhar uma chávena de chá, uma conversa que não precisa de motivo, apenas de presença.
É preciso passar a mão pelo cabelo de todas as Auroras e prometer voltar, sem falhar, para um sorriso com futuro.
Professora e Escritora














