Há filmes que não são apenas filmes. São memórias inventadas que, de alguma forma, se confundem com as nossas. Cinema Paradiso é isso: uma história sobre um rapaz, um projetor e um cinema numa pequena vila, mas também sobre a forma como o cinema pode marcar uma vida inteira. Sobre o que fica quando a sala escura desaparece. Sobre aquilo que levamos connosco quando tudo muda.

Também havia um cinema na vila onde cresci. Ia lá com os meus irmãos ver “as matinés”. Lembro-me das cortinas vermelhas de veludo, pesadas, quase solenes, como no cinema de Salvatore no filme. Lembro-me dos bancos demasiado grandes para o meu corpo pequeno, onde me perdia quando me sentava. E lembro-me dos chocolatinhos no intervalo, e de como até aquela pausa doce fazia parte do próprio ritual de entrada no sonho.
Hoje, como em Cinema Paradiso, esse cinema já não existe.
Mas o que ele me deu, e o que o filme me recorda, ficou.
Porque Cinema Paradiso não é apenas a história de um cinema que fecha no fim. É a história de tudo o que o cinema nos dá quando somos pequenos e vulneráveis ao mundo. É a relação entre o menino e Alfredo, entre o olhar e a projeção, entre a vida vivida e a vida vista. É aprender a ver o mundo, ainda que através de uma luz tremida numa parede branca.
E, de certa forma, também foi isso que o cinema fez por mim.
Numa fase particularmente difícil da minha vida, o cinema foi abrigo. Foi colo. Foi o lugar onde podia desaparecer sem me perder. Naquelas duas horas de filme, deixava de estar presa apenas à minha realidade.
Tal como em Cinema Paradiso, havia sempre outra vida a acontecer do outro lado da luz. Outras histórias. Outras dores. Outras formas de amar, de perder, de resistir. E isso, por mais simples que pareça, foi o que me sustentou em muitos dias.
Ainda hoje, facilmente me ouvem responder: “Aprendi isto uma vez num filme.”
O cinema deu-me mundos novos quando o meu parecia demasiado pequeno ou pesado. Deu-me perspetivas quando eu só via uma direção possível. Deu-men personagens que me ensinaram que a vida é sempre mais complexa do que aquilo que estamos a sentir no imediato.
No cinema, vi que há bicicletas que voam, super-heróis que sangram e vampiros capazes de amar. Há amores que sobrevivem ao tempo e outros que ficam apenas na memória, como o próprio Cinema Paradiso nos mostra no seu final tão bonito e tão doloroso.
Aprendi em filmes que crescer é também aprender a despedirmo-nos de lugares, de pessoas e de versões de nós próprios. Que nem sempre o final feliz garante uma boa história. E que, às vezes, quando ele não existe, a redenção que daí advém é tão mais poderosa, e apenas uma força para continuar. Porque também há histórias na nossa vida que têm parte 2.
O cinema deu-me personagens incríveis que me ensinaram tanto, como a inesquecível Agrado: que a verdadeira autoconfiança vem de darmos ao mundo, todos os dias, provas irrefutáveis de que somos quem dizemos ser.
Talvez por isso este filme continue a doer e a consolar ao mesmo tempo. Porque fala de perda, mas também de permanência.
E talvez seja isso que o cinema me ensinou também: que nada desaparece completamente. Nem os cinemas da nossa terra. Nem as histórias que nos salvaram em silêncio. Nem as versões de nós que precisaram de colo para continuar.
Porque tudo isso continua a existir na forma como vemos o mundo, como se cada imagem, cada memória, cada história pudesse ainda iluminar o escuro de dentro de nós.
O cinema não é apenas o que vemos. É aquilo em que nos tornamos depois de ver.

Gestora de clientes no setor segurador / Explorando a escrita/ Entusiasta do desenvolvimento pessoal e profissional







