Há meninos que pedem brinquedos. E há outros que pedem o céu – aquele que guardaram no peito, mesmo depois de tudo se ter perdido. Este é um conto sobre a luz que regressa quando a noite parece maior.
As estrelas entravam-lhe pelas frinchas das telhas, como se o telhado fosse um coador de luz. O menino não se queixava do frio. Dizia que o frio era apenas o jeito que o inverno tinha de abraçar devagar. Encolhia-se na esteira e, antes de adormecer, contava as estrelas que se atreviam a visitá-lo – uma, duas, três, às vezes tímidas, mas cada uma trazia um brilho diferente, como se viessem de sítios longínquos, cheias de histórias que só as crianças conseguem ouvir.
O menino não pedia brinquedos, nem sapatos novos. Só queria o céu do seu país.
E dizia isso com uma certeza tal, que espantava a todos.
– Mas o céu é o mesmo em todo o lado – dizia-lhe a mulher da casa onde agora vivia.
Ele sorria, sem teimar. Sabia que há céus que não se medem pela cor, mas pela memória.
Antes de vir, o menino tinha um céu que cheirava a terra molhada, a pão fumegante e a lenha. Um céu que se acendia com vozes, cantigas e risos.
A guerra levara-lhe o chão – e, com o chão, a aldeia, a escola, o cão que o esperava à porta. Mas o céu, esse, continuava guardado nos seus olhos; e, tantas vezes quando os fechava via-o inteiro, azul e profundo, com nuvens que pareciam ovelhas perdidas – talvez aquelas que deixara para trás.
Na véspera de Natal, a mulher trouxe-lhe uma manta e um pedaço de bolo-rei. O menino agradeceu, mas não tocou logo na comida. Saiu para o quintal e ficou a olhar o firmamento. As estrelas pareciam mais próximas, quase lhe tocavam os cabelos negros; sentiu-as pertinho de si.
– Estão diferentes… – São as mesmas de ontem – disse ela, à porta.
– Não. As de ontem não piscavam assim.
Ela sorriu, achando que era devaneio. Mas o menino ficou sério, muito atento, como quem escuta uma voz antiga.
– Acho que me estão a chamar – disse quase num sussurro.
A mulher ficou apreensiva. Havia algo naquele fiozinho de voz que lhe lembrou as preces de quando era menina. A noite estava fria, mas ele parecia aquecido por dentro.
Então, uma estrela maior destacou-se do resto do céu. Caiu devagar, riscando o negrume com uma cauda dourada. O menino, com um brilhozinho no olhar, deu um passo à frente.
– É do meu país – disse.
– Veio buscar o Natal que lá deixei.
Por um instante, tudo ficou parado. O vento calou-se, os pinheiros curvaram-se, e a mulher sentiu uma lágrima quente escorrer-lhe pela face gelada. Quando piscou os olhos, o menino ainda estava ali, mas cercado de luz. As estrelas pareciam dançar à volta dele, num bailado silencioso e manso.
Depois, tudo se apagou devagarinho, como uma vela que termina o pavio.
Na manhã seguinte, a esteira estava vazia. A manta, dobrada. E no chão, um punhado de pó brilhante, como se alguém tivesse deixado cair um pedaço de céu.
A mulher levou a mão ao peito. Lá fora, o sino da igreja tocava as badaladas do dia de Natal. Levantou os olhos: o céu estava diferente – mais claro, mais limpo – como se alguém o tivesse lavado durante a noite.
– Encontraste o teu país, menino – murmurou.
E jurou a todos que, naquele Natal, as estrelas cintilavam de outra forma – como se houvesse, entre elas, um pequeno coração a bater.
Professora e Escritora














