O inverno do nosso descontentamento

Mais artigos

É verdade que andamos descontentes com a meteorologia. Com os ares arrefecidos e candeias às avessas. Mas, sobretudo com o que ela nos deixou.

Há invernos que chegam devagar, quase em passos de lã, trazem o frio pela mão e o cheiro a lareira nas roupas; vêm sonolentos, entardecidos. E depois há estes – os que entram porta dentro como visitas mal-educadas, sacodem a chuva no tapete da sala, desarrumam telhados, dobram árvores como quem dobra folhas de papel.

Este inverno, dos que me lembro, não se limitou a ser estação: decidiu ser protagonista feroz.

O céu perdeu a paciência e desabou milhões de litros de água. A boca do ventou abriu-se num grito antigo. As marés subiram com a arrogância de quem já não pede licença. E nós, cá em baixo, com guarda-chuvas virados do avesso e notificações no telemóvel a anunciar mais um aviso laranja, mais uma frente fria, mais uma madrugada inquieta.

Chamaram-lhes nomes técnicos – depressões atmosféricas, rios atmosféricos, rajadas ciclónicas. Mas no fundo, nós sabemos que era apenas o inverno a repisar o seu mau humor. A bater à porta todos os dias, como se tivesse contas por ajustar. Será que lhe devíamos alguma coisa?

E, não chegando tudo isto, entre uns poucos dias ensolarados, vêm as desalmadas poeiras do deserto.

Num dia acordamos sob chuva cerrada; no outro, o céu apresenta-se turvo, pintado de um amarelo doentio, como se o horizonte tivesse sido varrido por mãos invisíveis. O carro amanhece coberto de pó fino, os parapeitos das janelas ganham uma película ocre, e respiramos com a cautela de quem atravessa um quarto antigo cheio de memórias suspensas.

Há qualquer coisa de inquietante nesse pó que viaja milhares de quilómetros para pousar no nosso quotidiano. Não é apenas sujidade: é a sensação de que o mundo inteiro está em movimento, de que as fronteiras são frágeis até para os grãos mais leves. A tempestade já não vem só do mar ou do céu; vem de longe, atravessa continentes, lembra-nos que pertencemos a uma engrenagem maior do que julgávamos.

Sem qualquer dúvida este é o inverno do nosso descontentamento. Não apenas pelo frio que nos entra nos ossos, mas pelo cansaço que se instala. Cansaço de limpar, de sacudir, de recomeçar.

De recomeçar sem olhar pra trás e tentar assegurar o futuro, com os pés no presente imediato.

As árvores caídas nas estradas parecem frases interrompidas. As praias desfeitas lembram-nos que nada é definitivo, nem as casas, nem as certezas; nada!

Há uma vulnerabilidade estranha em tudo isto. Uma sensação de desordem que não se resolve com vassoura nem com fita-cola ou lonas. O inverno transformou-se num estado de alma: uma acumulação de excessos, água a mais, vento a mais, pó a mais. A natureza faz questão de reforçar cada linha da sua força.

Talvez o nosso descontentamento não seja apenas com a estação, mas com a fragilidade que ela expõe. Com a ilusão de controlo que se desfaz à primeira rajada. Com a ideia confortável de que as coisas ficam sempre onde as deixámos.

Depois da tempestade vem a bonança. Vamos continuar a abrir janelas, a varrer degraus, a plantar árvores novas e que, mesmo descontentes, não deixamos de reconstruir.

Talvez seja esse o trabalho secreto do inverno: desgastar-nos o suficiente para nos obrigar a cuidar melhor do que fica.

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img