Já pararam para pensar por que é que, no mundo do trabalho, a “experiência” soa cada vez mais como um eufemismo para “data de validade expirada”? Procuramos incessantemente “sangue novo” e “nativos digitais”, como se os profissionais com mais de 50 anos fossem relíquias de um museu, incapazes de ligar um cabo USB sem chamar o filho. Mas, nesta obsessão pelo fresco, não estaremos a ignorar o valor de quem já navegou por mares digitais e analógicos sem afundar o barco?
Vamos ao cerne da questão: o ageísmo no recrutamento é como um filtro de Instagram que apaga as rugas, mas também a sabedoria. Imaginem um anúncio de emprego: “Procuramos jovem dinâmico, com zero bagagem emocional e pronto para reinventar a roda”. Soa familiar? É o que vemos todos os dias, como se a idade trouxesse um vírus que bloqueia o acesso ao futuro. No entanto, quem passou pela transição do pager para o smartphone, ou das disquetes para a nuvem, não é um dinossauro – é um sobrevivente com superpoderes. Sobreviveu a crises económicas que pareciam o apocalipse, a modas tecnológicas que duraram menos que um café, e a chefes que faziam o Darth Vader parecer simpático.
Tomem o exemplo da minha área, a automação e a robótica. Um engenheiro jovem pode programar um robô para dançar o moonwalk em minutos, e isso é genial – traz frescura e ideias que desafiam o status quo. Mas quem é que prevê que o mesmo robô vai empatar a linha de produção porque não considera o factor humano, como um operário cansado ou um fornecedor imprevisível? É o veterano, com os seus “quilómetros” de fábrica no currículo, que cheira o problema a léguas. É ele que transforma uma ideia brilhante num processo viável, evitando que o investimento vire um brinquedo caro e esquecido no armazém.
Humor à parte, pensem numa metáfora culinária: os jovens são como um shot de expresso – rápidos, intensos, cheios de cafeína criativa. Os seniores? Um vinho envelhecido: demoram mais a abrir, mas entregam camadas de sabor que um gole rápido nunca revela. No dia-a-dia, isso traduz-se em negociações onde o silêncio vale ouro, ou em projectos onde a paciência evita desastres. Lembrem-se da recente vaga de layoffs nas big techs americanas – quem sobreviveu foram muitas vezes os que já tinham visto bolhas rebentar, não os que só conheciam o boom eterno. Contraste surpreendente: enquanto os miúdos reinventam apps, os “velhos” reinventam-se a si próprios, aprendendo IA aos 55 como se fosse o novo tricot.
Mas há um lado pragmático (e por vezes negro): muitas empresas descartam estes profissionais por serem “caros”, optando por estagiários que custam menos que um almoço executivo. Erro crasso. É como comprar um carro barato que avaria na primeira viagem, em vez de investir num que dura décadas. A experiência poupa em erros caros, em formações repetidas e, como já escrevi antes, evita que o burnout se torne o plano de carreira da equipa. E, surpresa das surpresas, estudos da OCDE mostram que equipas mistas são 20% mais inovadoras. Porquê? Porque a irreverência precisa de raízes para não voar ao vento.
No fundo, o mercado de trabalho actual é um circo onde os trapezistas jovens brilham, mas sem a rede dos experientes, o espetáculo acaba em quedas feias. Na robótica, vejo isso todos os dias: algoritmos processam dados sem pestanejar, mas só a maturidade humana decide o “porquê” por trás do “como”. É tempo de valorizar a mistura – o turbo da juventude com o travão da sabedoria.
E se, em vez de caçar unicórnios digitais, começássemos a caçar dragões experientes? Afinal, num mundo que gira cada vez mais depressa, quem melhor para guiar do que quem já deu voltas suficientes para não enjoar? O desafio é seu: da próxima vez que recrutar, pergunte-se se quer velocidade pura ou uma viagem que chegue ao destino. Pode ser a diferença entre apenas sobreviver ou realmente prosperar.
Empresário – Automação e Robótica







